Um Conto Para Minha Morte

Ela pegou o primeiro taxi que despontou na avenida, era um carro simples desses amarelados pelo tempo, com cheiro de outros passageiros e repleto de história. Pediu ao motorista que seguisse em frente, queria sentir o vento na cara sem destino ou apenas a liberdade de não saber a próxima parada lhe tocando a face, fazendo cócegas em sua barriga, como borboletas eletrificadas pela felicidade.

O motorista acostumado com pedidos estranhos apenas seguiu, em sua bandeira mais cara, pela avenida. Ela, no banco de trás, abriu a janela e deitou a cabeça sob o parapeito. Deixou os olhos percorrerem com cuidado cada prédio borrado que passava. Queria lembrar exatamente de tudo como era, queria ter a certeza de ter tomado a decisão correta. “Deixar para trás” nunca fora uma ideia concreta, mas ante a todos os acontecimentos dos últimos dias, ela vinha sentindo essa necessidade de virar a página correndo, antes de terminar o livro, antes de começar uma nova história.

O carro seguia a uma velocidade impensável, ao menos era isso que a mente dela dizia, enquanto seus dedos tamborilavam compulsoriamente pela parte traseira de seu celular caro. Sentindo – se livre, atirou o aparelho pela janela sem olhar, decidiu que não queria mais o contato dos conhecidos, dos que atravessavam a rua para lhe cumprimentar ou de quem compartilhava links em sua timeline. Ao contrário, queria a distância de enormes quarteirões com qualquer um que um dia a tenha chamado de “amiga”.

Ela estava partindo, deixando para trás sem dor ou remorso, tudo o que um dia havia sido. Sua formação, seu circulo de amizades, seu anel de noivado, o grupo da igreja, das aulas de arte, sua família… todos os que haviam participado de qualquer período de sua vida estavam sendo retirados de sua memória. Afinal, ela queria a liberdade e sabia que jamais conseguiria voar com tanto peso no coração.

O motorista nesse momento já impaciente e desconfiado perguntou a onde ela gostaria de ficar. Ela disse o nome da primeira rua que lhe veio a mente. Aqueles nomes que sempre estão lá como resposta para qualquer problema. O carro parou, ela jogou uma quantidade absurda de dinheiro recém sacado no colo do taxista e saiu andando.

Viu ao longe o sol se pondo em um véu espelhado de águas cristalinas. Seguiu pela pequena ponte da felicidade instantânea sem olhar para trás, pulou as cercas de segurança, sentiu o vento lamber seu rosto como um amante faminto, imaginou o tempo parar nesses segundos enquanto se posicionava na parte externa da murada de proteção, olhou para baixo e viu a imensidão de um mar qualquer, as ondas quebravam cuidadosamente pelas encostas, o vento fazia a superfície dançar enigmaticamente.

Ela estava ali na ponta dos pés, se despedindo do seu universo colorido, das suas histórias bonitas e tristes, olhando o rosto de todos que um dia amará, desprendeu dedo a dedo, como quem cuidadosamente tenta abrir um pacote de salgadinhos em uma sala silenciosa. Se jogou na imensidão das águas claras, sentiu a liberdade lhe esvair pelos dedos e as borboletas fugirem de seu estômago, ao cair dolorosamente na água, embolou-se em um turbilhão de arrependimento. Não voltou a superfície a tempo de se salvar, mas mergulhou o suficiente para esquecerem de sua existência.

caindo

Anúncios

3 comentários em “Um Conto Para Minha Morte

    1. Que bom que gostou. Fico feliz. E sim, o título foi pensado em cima da música do saudoso Raul. Adoro essa música, então quando terminei e tive de pensar em algo para o título me veio a música e casou com a ideia. Enfim. Obrigada por ler 🙂 e volte sempre!

Obrigada por comentar.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s