O Personagem de si mesmo

Por: Michele Kastner Olivi Finkler

Certa vez conheci um Hippie. Assim, com maiúscula mesmo, pois foi como ele se apresentou:

“-Vou mostrar meu trabalho e se você gostar, moça, dá um dinheiro pro Hippie. Mas se você não gostar não precisa pagar, não.”

Apenas uma coisa me incomodou naquela frase: ele usara um substantivo comum no lugar do próprio. Isso não estava certo. Ele não tinha vergonha de ser hippie, mas por algum motivo não falava seu nome. Aquilo me intrigou:

“- Mas Hippie não é o seu nome, é?”

Ele me olhou com olhos divertidos, abriu um sorriso e disse:

“-Moça, você é a primeira pessoa a se interessar pelo meu nome.”

Então, pela primeira vez naquela noite, realmente olhei para o rapaz e entendi o motivo da confusão. Ele saíra de sua cidade para conhecer outro país com um amigo. Quebrara todas as amarras sociais que o prendiam numa vida que não queria e fora viver a sua. Mas pra isso ele criou um personagem de si mesmo. Não era mais o Daniel, era o Hippie. Afinal, o Daniel não poderia vender artesanato num bar tomando cerveja com o amigo para pagar o pernoite em um hotel. O Hippie pode. O Daniel não abandonaria o emprego para conhecer outro país sem dinheiro para a volta. O Hippie fez isso, pois não tem casa para voltar. Quando chegar em casa, não será mais o Hippie – voltará a ser o Daniel. Quem sabe ele corte e penteie os cabelos. Ou quem sabe fique com eles, emprestados do personagem.

O sorriso que ele deu me encorajou a continuar perguntando, afinal, o Hippie gostava de falar do Daniel. Este estranho que estava ali ao meu lado, mas não participava da conversa. Quem falava era o Hippie. Sobre os motivos que levaram o Daniel a criá-lo, sobre a viagem com o amigo e os planos para a próxima. Não me lembrei de perguntar se ele se arrependera – a expressão em seu rosto deixava claro que não. Quando ele se despediu, era como se eu conhecesse o Daniel, mas nunca sequer o tinha visto – ele usara uma máscara o tempo todo. O Hippie voltara para a companhia do amigo. Eu prestei atenção na conversa de minha mesa e não mais lembrei dele. Só mais tarde, antes de dormir, voltei a pensar no Hippie. Então me veio à cabeça uma pergunta que, quando certa professora indagara, todos hesitaram em responder: afinal, “qual é a vida que vale a pena ser vivida?

Michele Kastner Olivi Finkler, “Vai se formar em jornalismo, mas não sabe o que quer da vida. É quieta e tranquilha até que alguém lhe tire do sério. É totalmente indecisa e acaba deixando pra última hora. É inconvenientemente sincera e teimosa. A boa notícia é que ela não dispensa bons livros, bons filmes e ótimos momentos.”

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