TÁ NA MODA: Falar da Linda – personagem da novela Amor à Vida

Vamos partir de um principio simples: estou dando minha opinião sobre o assunto; não sou médica nem se quer trabalho na área da saúde. Meus comentários se tratam unicamente de observações e percepções pessoais. Segundo: vou tratar esse assunto imaginando eles como um caso real, e não uma histórinha de novela que alguém contou.

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Virou um bafafa nas medias sociais de tooooodo Brasil a história de alguém “mentalmente incapaz” e de um rapazote boa pinta “normal”.

Quero dizer…

Atos declarados de homofobia de um pai em relação ao filho, chocaram menos. Uma psicopata manipuladora rouba o filho do suposto melhor amigo e isso também não choca. A mãe que se diz muito apaixonada e preocupada pelo futuro da filha passa os capítulos todos tentando transformá-la num fenômeno midiático ou casá-la com um milho o que, de tão natural, só causou risadas. Outra psicopata nossa, como tinha psicopata por capitulo nessa novela, eim! manipula o namorado (e suposto grande amor) sem opinião pessoal para conquistar, casar e roubar uma garota completamente alienada do mundo que está muito doente com o seu lindo cabelo ruivo indo para cova e o máximo que ela causou na população foi um “nossa, que maldade”.

Daria pra enumerar uma porção absurdos sociais por capítulo dessa história, mas o que causou reboliço foi um dos poucos gestos de AMOR verdadeiro que aconteceu; e diga-se de passagem, gesto que dá título a coisa toda e foi totalmente subvencionado durante o enredo.

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Como disse, vamos pensar em Linda e Rafael como pessoas de verdade. Dessas que daria pra encontrar uma vizinha qualquer falando de uma prima qualquer numa cidade qualquer.

Linda é uma garota com grau acentuado de autismo.

Ela é fechada em si mesma, pouco comunicativa, sedentária, tem o vocabulário reduzido e aversão ao toque humano. Ele, um cara normal, formado, boa pinta, assalariado e um tanto utópico pra realidade.

Ela vive com a família onde a irmã é uma das psicopatas que citei ali em cima. O irmão, que se diz tão apegado a ela se mostra gradativamente um preconceituoso de marca maior porque quem usa a desculpa de estar prezando pela saúde de alguém enquanto está na verdade preocupado com a aparência estética merece esse título!! O pai, felizmente o pai é alguém que quer e luta pelo bem da filha, mas luta sozinho. Sua esposa e mãe é um ser humano completamente paranoico e desinformado quanto ao que se pode fazer positivamente em relação a filha.

Essa mãe escondeu a filha do restante do mundo. Limitou o seu contato com toda e qualquer influência externa que pudesse surgir, ignorando que em algumas situações essa influência pudesse ser positiva. Talvez por medo, vergonha, pura desinformação ou um mix dessas sensações.

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E ainda assim, mesmo escondida, aparece alguém altruísta e um tanto utópico chamado Rafael.

Talvez ele tenha inicialmente agido pelo instinto de querer se aproximar de uma garota bonita, mas ao saber que Linda é autista não recuou.

Tanto não recuou que se aproximou dela como nenhum dos próprios familiares havia feito até então.

Ele foi o responsável pelo que eu chamei de “estímulos externos positivos”.

Linda passou a se comunicar com um novo e extenso vocabulário, a mostrar opiniões pessoais mais fortes, a expressar-se através de novos veículos como a pintura, a superar sua aversão pelo toque interpessoal chegando ao momento em que se permitiu um gesto universal de carinho, o abraço (e seguidamente, o beijo).

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Talvez eu tenha uma visão muito budista da vida, mas acredito sinceramente na entrega do Rafael em relação ao carinho que ele tem pela Linda.

Considero assim…

E depois, e quando essa mesma família não estiver mais lá para subverter sua capacidade e escondê-la do mundo? A tal família que ao longo de, não sei, 20 e poucos anos, não conseguiu o progresso que um “advogadozinho qualquer” conseguiu em meses.  Ela vira um problema social? Vai ser enviada de casa em casa entre os primos e outros familiares? Ah, vai viver com o irmão preconceituoso que, sinceramente, eu vejo se transformando no mesmo nível de pessoa que a mãe deles costumava ser porque a outra irmã, a essa altura já virou churrasquinho grego e optaria por uma “casa de repouso”.

Rafael surge como uma personagem assertiva, que decidiu por livre e consciente opção dedicar-se a outra pessoa. Que decidiu incentivar, cuidar e proteger a entidade e a vida de um outro ser, de forma não egoísta, altruísta e incentivadora na verdade num grau irreal pra sociedade hoje, mas falando serio, como seria se existissem mais e mais pessoas assim.

Nós nos acostumamos a ver o Amor de forma tão dissimulada e confusa que ignoramos suas capacidades superiores. O Amor, como eu vejo, exige um grau de desapego e responsabilidade a que nem todos estamos acostumados. Rafael vai amá-la e cuidá-la, quisera eu acreditar, por todo o restante de suas vida.

Incapaz não é a pessoa que tem limitação física, mental ou psicológica que “aconteceu” por uma ou outra razão. Incapaz somos nós que, “normais” que somos, nos esquecemos que todo ser vivo é capaz de superar-se a si mesmo diariamente; só é preciso espaço, tempo e um paciente Amor para inspirar – como bem disse a própria Linda.

5Assista aqui o casamento

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2 comentários em “TÁ NA MODA: Falar da Linda – personagem da novela Amor à Vida

  1. Concordo que a intenção do autor foi mostrar um caso de amor verdadeiro e que “o amor supera tudo”, por assim dizer. O problema é que, na vida real, se Linda fosse uma autista grave, a história teria sido um pouco diferente. Autistas graves não se conectam assim com o mundo de uma hora pra outra, não atingem maturidade e condição de tomada e decisões complexas. Se Linda fosse autista, seria como o cara boa pinta utópico de 30 anos casar com uma criança de 6 ou 7 anos. Se fosse uma história real, o cara seria um estuprador de vulnerável, por lei, e não um romântico. O problema desse casamento é que passa uma ideia muito errada sobre condição mental para o público que é leigo na área de saúde. Violência, preconceito, corrupção, nada disso choca mais. Agora, se a gente substituísse na novela a Linda por uma criança de 6 anos e colocasse eles dois pra casarem, acho que ninguém iria defender a pedofilia. Porque, mentalmente e por lei, Linda é uma “criança”.
    A única coisa que consegui pensar, quando eles casaram, foi no choque que a menina deve ter sofrido na lua de mel…
    A intenção do autor foi boa, mas ele poderia ter: a) pesquisado mais sobre autismo ou b) colocar outra doença grave, mas que não prejudicasse a capacidade de julgamento da personagem… Sei lá, uma doença que deixasse ela ter noção das coisas, mas que deformasse ela, mostrando assim que o amor verdadeiro acontece pra gente feia também, porque convenhamos, autista, sedentária, etc e tal… linda jamais seria gata do jeito que é…

    1. Oi Rodolfo, ,)
      Observação mega valida (para quem, diferente da autora aqui, não te conhece, é bom comentar que você é médico), como comentei com vc recetemente por msg: sejamos literários e não literais
      vamos encarrar de uma forma mais “budista de ser” na posição do Rafael. Mais do que pensar no susto que a Linda tomou ou não na sua lua de mel, consideremos o lado positivo da presença de alguém na vida de outro ser… Socialmente ela é uma criança sim e mesmo muito estimulada não iria se desenvolver aos passos largos como foi mostrado na novela em um espaço de tempo tão efêmero, mas leia as entrelinhas e a mensagem.
      E sim, concordo inteiramente que o autor poderia ser um pouco mais coerente com algumas escolhas que fez na novela – como quando PRATICAMENTE chamou todos os palestinos de terroristas, mas essa historieta de pessoa feia ser amada, blablabla já deu o seu melhor com fábulas como A Bela e a Fera.

      ps. kedê meu café!? ,)

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