A livraria

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Certa vez estava eu na livraria, um dos lugares em que mais me sinto à vontade em todo o universo. Assim que entrei, uma atendente veio logo ao meu encontro e disse “Olá, posso ajudar?” fiz que não com a cabeça. Muito raramente vou à livraria com um livro em mente. Chego lá, observo quase todos os exemplares que estão na loja, e dentre eles acabo escolhendo os que mais me chamaram a atenção. Não pense que julgo um livro pela sua capa, isso é algo quase que criminoso. Mas eu acredito muito que a capa de um livro deve transparecer uma ideia de forma visual do que aquela história se trata. E aquele pequeno comentário na contracapa do livro também não deve ser algo que defina por completo sua identidade. É como olhar para uma mulher vestida de burca e tentar imaginar como é o desenho de seu corpo. Impossível.

Acredito que para escolher um livro, o leitor tem de ter aquele sexto sentido. Algo naquele exemplar deve lhe chamar a atenção de todas as formas possíveis, visuais, emocionais, trazer algum tipo de lembrança, um consolo frente a alguma fase difícil. Eu digo que, quando você olha pro livro certo, você sente na hora que você foi até aquele lugar pra levar aquele livro. É como uma conexão da história que quer ser lida e contada para seu novo leitor.

Voltando a livraria, eu achei aquele exemplar de “Charlotte Street” de Danny Wallace, e não sei se foi pelo fato de que a história se passa em Londres, ou se o mistério sobre a garota do taxi me deixou curioso, mas tive aquela sensação que comentei à pouco e decidi dar uma lida. Eu estava afundado na leitura, mas não o suficiente para não perceber a agitação que vinha de dentro da livraria. Uma senhora cochichava com sua amiga num tom de insatisfação e repulsa. Ambas estavam olhando para o mesmo lado, e quando me virei para observar o que estava acontecendo, avistei aquela moça.

Realmente, me parecia que aquela mulher não pertencia a um lugar como uma livraria. Ela usava trapos sujos, seus cabelos imundos e compridos, e seu porte físico me dizia que aquela mulher não comia a dias. Fiquei tão surpreso quanto curioso. O que aquela mulher estaria fazendo numa livraria? Mas o que realmente me levou a ir lá e conversar com ela, foram os comentários maldosos daquelas duas senhoras, que diziam coisas horríveis sobre a tal moça que “vestia trapos velhos e não deveria nem ter passado pela porta daquela loja” como disse a senhora que tinha mais plástica no nariz que a outra.

Foi então que deixei meu livro de lado, e fui de encontro àquela mulher.

– Olá. Tudo bem?

– O-oi. Bem eu não estou, mas acredito que o senhor já tenha percebido isso. E o senhor?

– Estou bem, obrigado. Eu peço desculpas pela minha intromissão, mas não pude deixar de reparar que você causou um certo espanto nas pessoas ao entrar nessa livraria e estar aqui, procurando um livro.

– Ah – ela riu – meu dom em causar espanto às pessoas é algo que já não me espanta mais.

– Mas isso não te incomoda? O fato de que essas pessoas ficam olhando pra você com essa expressão de repulsa?

– Nem um pouco. Sabe, se eu fosse me importar com todas as pessoas que me olham torto, eu já estaria morta.

Eu estava muito curioso pra saber o que aquela mulher tinha pra contar. Queria saber quais eram os motivos dela pra estar vestida daquele jeito, qual era sua história. E foi então que a convidei para se sentar e tomar um café. Aquilo fez com que o resto das pessoas que não estavam de olho em nós passassem a olhar. E eu já não estava dando a mínima para essas pessoas. Tudo o que eu queria saber estava ali, naquela mulher, com aquela expressão de medo e bravura ao mesmo tempo. Eu queria conhecer aquela história.

Engraçado não? Fui a uma livraria, buscar histórias em que todos podem ir lá e comprar, mas o destino me preparou uma história muito melhor. Uma história que eu não tive de pagar com meu cartão de crédito (a não ser pelo café), mas com uma conversa, uma demonstração de interesse. E pelo que vi, nenhuma daquelas pessoas estavam com vontade de conhecer aquela história, e isso parece que me fez querer sabe-la ainda mais.

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