Retrocessos

Eu gosto de escrever poemas, falar de coisas bonitas da vida, de pássaros  e flores. É sempre mais fácil falar do belo e bonito, mas é necessário sair da bolha e entender que há um mundo repleto de perversidades, parece que só escrevemos dessas coisas quando o coração está sufocado, e os olhos e ouvidos não querem prestar atenção nos noticiários. Mas não tem como fugir, não há saída. É necessário gritar, berrar aos quatro cantos, porque parece que tudo está sendo esquecido, metade do mundo prefere ignorar, tomando chá ao ver o noticiário sangrento.

Mais uma criança foi morta pelo fatigo machismo, Alex, uma criança com sonhos, brincadeiras se foi. Por quê? Porque tinha que ter virado ‘HÓMI’, afinal, lavar louça e coisa de mulherzinha, menininha. Foi embora de Mossoró – RN, para um futuro incerto.

Menino não pode gostar de rosa, menina não pode jogar futebol e toda vez que escuto isso, vejo mais uma criança perdendo uma oportunidade de simplesmente ser criança, de poder desfrutar de uma fase que é de direito dela.

Alex beija a barriga da mãe, Digna, que foi ameaçada por Conselho Tutelar por não matricular menino na escola. Foto:Divulgação

Eu fico imaginando os olhos desta criança saindo da casa da mãe e vindo morar com o pai, oito anos de idade. Tantos sonhos se perderam. Ele não podia ser criança, brincar, sonhar. Ele tinha que ser homem, e ele foi tão homem que aos olhos dessa sociedade machista, homem não chora e ele não chorou, segurou firme todas as lágrimas que escorriam lá de dentro, quando seu ‘pai’ o espancava.

Entendam: se seu filho brincar de boneca ele não vai ser homossexual, o deixa descobrir, e sua filha não precisa brincar só de panelas e bonecas, há tantas possibilidades. Mas sempre há parâmetros, padrões, não é? Às vezes eu penso, voltamos à barbárie? Acho que não, estamos vivendo a cada dia. E eu tenho medo, medo das pessoas idolatrarem boas ações e isso não ser considerado como algo normal, medo de não haver reações.

De todas as filosofias, sociologias lidas me recordo de pronunciar uma vez, entre as esquinas de uma avenida:

– A minha maior causa é as crianças, todas essas teorias têm alguém para defender e os pequenos, quem vai olhar eles?

E quantos Alex, quantos Anas, Amandas, Eduardos e Guilhermes não passam por essa mesma situação? São veladas no silêncio dos esquecidos. Eu só quero que todas essas crianças tenham um abraço gostoso, uma comida que nem de vó, e todas as brincadeiras de rua, que elas tenham direito a todas as cores, sem preocupação em ser de menino ou menina, simplesmente serem crianças com a pureza e bons sentimentos.

É só um desabafo de um coração apertado.

“Quem vai te abraçar?
Me fala quem vai te socorrer
Quando chover e acabar a luz
Pra quem você vai correr?”*

*Quem além de você – Leoni.

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