Agapefobia – parte I

“Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!…”
(Casimiro de Abreu)

Você é tão bonito que eu mal consigo acreditar em sua existência. Seus cabelos negros e seus olhos esverdeados, junto com seu porte atlético me assustam. Sempre me assustaram. Há dez anos você povoa meus pensamentos, representando todo o pecado que reside nas pessoas, aqueles os quais elas estão sempre distraídas demais pra cometerem e censuradas demais pra não falarem. Eu era minha própria censura em contraponto a você.

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Enquanto isso você seguia quebrando paradigmas. Apesar de todos seus encantos, contrariava o estigma do galã teen sendo completamente acessível, simpático e agradável, sempre me embasbacando ainda mais. Foi a partir de então que achei que você não fosse real, apesar de achar que minha imaginação não poderia chegar assim tão longe. Seria você um delírio coletivo? Seria você a soma dos anseios de um escape por estarmos em um lugar longe da cidade, com verbas precárias e ensino displicente? Seria você o consolo de inúmeras pessoas que enfrentavam longas distâncias, fosse com frio ou calor ou chuva para descobrirem muitas vezes que perderam a viagem? Você sabia que alguém já havia pensado isso de você?

Você foi um dos que fez questão de me mostrar que eu não era invisível, apesar de eu estar acostumada com tal condição. E como se fosse pouco, era o elo entre meus amigos (dos tempos do colégio) e os amigos dos meus amigos (a turma de vocês, união que sempre invejei) nas festas dos cursos. Mas o medo que eu sentia era tanto que me impedia de nos aproximarmos o suficiente pra te chamar de amigo. Ver você me fazia feliz, conversar contigo e com seus colegas de turma era interessante, mas quando você estava só, na minha visão a coisa mudava de figura. Por isso, levei um ano para tomar coragem e entender que você não iria me morder se eu te cumprimentasse direito e começássemos a conversar. Quando você foi tentar a vida fora, sentia saudades e o medo de chegar perto tornou-se o medo de não te ver de novo. Mas eu conseguia sufocá-la com a felicidade de te ver fazendo o que gostava.

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Depois de uma década, sua beleza continua a ser um acinte. Ainda que mais madura, os olhos —ainda que abalados pelas tragédias sucedidas próximas a ti— seguem belíssimos, e o sorriso, ainda que mais teimoso pra sair, em nada mudou. O rapaz da faculdade hoje é um trabalhador sério, mas que segue ainda causando furor por conta da beleza e da simpatia em igual teor (extraordinário).

Olhando hoje, depois de dez anos que nos conhecemos, sendo os três primeiros de convivência diária, tenho que reconhecer pesarosamente: não era só medo de você o que eu sentia. Tinha medo de mim, de como seria minha vida após ter me envolvido com você. Santa covardia…

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2 comentários em “Agapefobia – parte I

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