A carne mais barata do mercado é a carne negra

As revistas Trip e TPM do mês de abril vieram às bancas denunciando algo que acontece há séculos no Brasil e na minha vida há quase trinta anos: Ser negro no Brasil é foda. Ser negra no Brasil é muito foda. Somos milhares de Tingas, Cláudias, Amarildos, Daniéis, Esteres, Vinícius e Douglas; diariamente humilhados ao sofrer toda a sorte de preconceitos, subjugados sendo a opção número um de suspeitos, relegados à violência policial. Estão sempre tentando nos colocar no nosso “devido lugar”, seja lá qual esse lugar seja. Preto sozinho é bandido, preto junto é arrastão, preto foi feito pra ficar separado dos outros. Só esqueceram de avisar que esse pensamento não pode ser mais aceito há 126 anos, ao menos aqui no Brasil, o último país a abolir a escravidão. Ao menos, em teoria. a-chegada-dos-primeiros-negros

 

Não posso dizer que não me assustei ao ler a Trip, muitos casos e episódios de preconceito e discriminação ou aconteceram já comigo ou alguém da família ou foram próximos a mim, mas alguns dados são alarmantes. De todos os homicídios no país em 2011, 71% das vítimas eram jovens negros. Para 65% dos policiais, só por você ser preto, já é suspeito de alguma coisa. às vezes, não só pros policiais, taí o Vinícius que não me deixa mentir, levantando o ditado idiota de que todo preto (/índio/asiático) se parece.

DG foi encontrado morto, isso foi uma lástima. Mas só ficou registrado mesmo como luto porque ele era dançarino do Esquenta. 55% da população lamenta mais a morte de um jovem branco que de um jovem negro. Parece que a melanina conta até na hora do “Coitado, ele era tão novinho… Cheio de sonhos e planos…” Ou será que por termos a pele negra não temos objetivos de vida?

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Para a mulher, a coisa fica pior. Antes de colocar os números, queria dizer que vi poucos referenciais de beleza negra quando eu era criança. Não estou dizendo que não tinha (Afinal, Zezé Motta continua belíssima até hoje), mas nos anos 90 elas raramente apareciam. Hoje temos as belas Sharon Menezes, Juliana Alves, Taís Araújo, Isabel Fillardis (musa da última música composta pelo sambista João Nogueira) e Érika Januza, só pra citar algumas. Nos anos 90 não haviam bonecas negras, nem mesmo a amiguinha da Barbie, que além de ter o cabelo liso, custa uma fortuna.

Quando escolhi a profissão de jornalista, a única que aparecia bem era a Glória Maria. Hoje fico feliz de ver colegas como a Maria Júlia Coutinho (espero vê-la mais na rede nacional, não somente como “a garota do tempo”), Joyce Ribeiro (que desde que a branquelona besteirenta com nome de contadora de histórias chegou, infelizmente aparece apenas no jornal das manhãs do SBT), Dulcinéia Novais, Zileide Silva e mais outras que estão desempenhando seus trabalhos. Fica muito difícil enxergar um caminho a seguir sem um referencial. E foi isso que aconteceu com muitas jovens negras, como eu – trilhamos por um local desconhecido, encarando os percalços.

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Já sofri inúmeros tipos de chacota por causa da minha cor, além de escutar as frases ridículas “neguinha é só pra sarrar e dar uns beijinhos, não é pra casar”, “Você nem é negra, você é morena!” e “faça o favor de branquear a família!” Isso não depende de ninguém além de mim! Mas que história é essa? Agora, o que marcou mesmo foi uma vez em que dez da minha turma no Ensino Fundamental (Antigo 1º grau) se juntaram, me agrediram e me ataram a uma árvore, dizendo que “ali era lugar de macaco”. Essa memória voltou como um turbilhão na semana retrasada.

SOMOS MACACOS COISA NENHUMA! Daniel foi espirituoso, mas por esse trauma meu, não consigo ver graça ou vantagem na atitude dele. E a coisa começou a piorar com a campanha publicitária. Todos fizeram aquilo como se apenas aquela atitude pudesse erradicar com o preconceito num passe de mágica. Não, amizade, não funciona dessa forma. Pra você poder empunhar essa bananinha aí, primeiro é necessário que muitas outras atitudes (suas, inclusive) mudem. Antes de qualquer coisa, se um negro qualquer disse que sofreu preconceito, antes de tentar dizer que ele se colocou no lugar de vítima, já guarde a banana lá onde o sol não bate.

É preciso que você não atravesse a rua com medo do negão que está na mesma calçada que a sua. É necessário que você entenda que a neguinha não serve só pra empregada ou pra servir café na sua grande empresa, e muito menos como amante na sua cama, na ausência da esposa. É imprescindível que você veja que para haver igualdade de cargos e salários (mulheres negras ganham 38% a menos que homens brancos), os negros precisam ter condições de estudar. E que possam sair com emprego garantido, pois de nada adianta esse pessoal todo de diploma na mão (defendo as cotas e sei também que nosso sistema educacional precisa de uma recauchutagem geral). O tempo da separação já ficou pra trás. Já não temos mais espaços separados nas ruas ou nos ônibus, apesar de favelas ainda representarem grandes senzalas. Temos tanto direito de uso do elevador social quanto você. E, se não tiver como ajudar, favor partir a bananinha e bater bem batidinho numa vitamina.

 

UPDATE: E então? Resolveu alguma coisa toda a mastigação da banana? Pergunte ao Kevin Constant!

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3 comentários em “A carne mais barata do mercado é a carne negra

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