Anda João, vamos João, diga, João!

“Se João também soubesse
Quando em junho é seu dia
Viria do céu pra Terra
Todo cheio de alegria”

(João e José – Martinho da Vila)

Há 14 anos, eu perdia sem saber um de meus grandes ídolos.  João Batista Nogueira Junior morria, na madrugada do dia 6 de junho, às vésperas de apresentar um show, que viraria disco/CD. E mais: depois de resistir a cinco derrames, uma  isquemia cerebral e um AVC. Mais ainda: o filho, Diogo, foi quem prestou os primeiros socorros enquanto João passava mal e a esposa Ângela chamava a ambulância.

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 João e Diogo, no fim dos anos 1990.

Decidi começar essa história pelo final. Não é muito feliz, verdade, mas infelizmente como acontece com inúmeros artistas do nosso Brasil, é após a morte que suas obras são valorizadas. Eu fui descobrir o tamanho de minha perda somente seis anos depois, na correria para escolher qual o tema para o meu TCC, no curso de Letras. Só então descobri como era forte a influência em minha vida desse “sambista de calçada”, como ele mesmo se classificava.

João Batista Nogueira Junior herdou toda sua parte musical de seu pai, que era um grande músico. Em sua casa, grandes nomes da música nacional se reuniam e tocavam em festas que duravam dias, embalando seus sonhos e alegrando suas manhãs. João perdeu o pai quando era muito novo, tornando-se o homem da casa, cuidando de suas irmãs.

João, então, quis esquecer da música. Tinha o sonho de se sobressair no futebol, que acabou não dando certo. Então, a música o chamou. E assim a felicidade reinou.

A história, assim, bem resumida, parece pouco, dois parágrafos mirrados. Mas quer saber o que me prende a ela assim, desse jeitinho? Troque o nome João pelo nome Diogo e a história se repete tal e qual. Em linhas gerais, a história de pai e filho foi a mesma em linhas gerais, como João cantou em Espelho, canção que Diogo herdou.

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João Nogueira fez muito pela permanência do samba no alto patamar em que estava quando ele começou a fazer sucesso. Talvez esse seja um dos três principais fatores que não o deixaram chegar aos 60 anos, ou até mesmo a ver o sucesso do filho. Os outros dois, inevitavelmente, foram o excesso de bebida e de cigarros. Sua boemia extraía o melhor de sua criatividade, mas levou também sua vida.

Por muito tempo, a casa da família foi a sede do Clube do Samba, fazendo com que todos os grandes nomes do samba fossem tios de consideração dos filhos de João. Diz-se à boca miúda que João morreu nos braços de Diogo. Eu acho que ele disse isso em alguma entrevista. Depois da passagem do pai, Diogo  investiu nos esportes, o que quase deu certo, não fosse por uma séria lesão no joelho. Não tinha jeito, seu caminho era um só – a música.

 

João cantou como ninguém o Rio de Janeiro e suas belezas, e para as mazelas brasileiras havia sempre o Clube do Samba. Ele nunca fechou os olhos para o que acontecia no país. Suas músicas variavam desde autobiografias até canções de protesto, ou de incentivo. Ele quase nunca se deixou dobrar pelo mercado fonográfico e essa foi sua luta até o fim. E tudo isso é o que me deslumbra nele até hoje. Diogo segue uma linha mais “clean”, como jovem Geração Y da década de 1980 como eu, mas a herança está sempre presente, até mesmo na voz, que é incrivelmente semelhante a de seu pai.

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Quando João se foi, senti o remorso de não tê-lo valorizado devidamente. Mas minha redenção foi quando, em 2008, fui assistir a um show do Diogo Nogueira. Ele ainda não era essa potência high-profile de agora, essa mesma herança que eu sempre amei era muito mais valorizada que sua beleza que é sim, admito, estonteante. Á época, declamei um poema que havia feito para o pai dele, e um momento muito especial aconteceu: ganhei um abraço tão apertado, comovido e comovente que palavra alguma se tornou necessária no momento. Desde então, eu não exijo nada do Diogo, ele é o filho do meu sambista favorito. O herdeiro musical daquele que me encantou com sua poesia.

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Apesar de nunca conseguir matar a vontade de ver um dueto desses dois, estou satisfeita. João tinha Diogo, Diogo tem Davi. O samba segue seu curso por enquanto e o meu medo maior é o espelho se quebrar. Mas se depender do Diogo, não vai quebrar não.

PS: Quem tiver interesse em saber sobre a vida de João Nogueira, indico sua discobiografia, escrita por Luiz Fernando Vianna. O livro é muito bem escrito e detalha sua vida e carreira. Recomendo muito.

PS2: Minha primeira fanfiction (reconhecida como tal) era sobre a relação e os laços pai-filho desses dois. Nem eu aguentei a carga emocional, parando de escrever. Nem mesmo publiquei.

PS3: Eu achei que a lição que tinha aprendido com o João era valorizar os artistas que a gente admira enquanto estiverem vivos, mas em janeiro desse ano, descobri que na verdade, essa lição eu ainda não sabia de cor. 😦

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