Coisas de Velho

Por: Thays Petters

A gente percebe que está ficando velho quando, por diversas vezes, fala e faz coisas semelhantes aos nossos pais, tios e avós. Acho muito engraçado isso. Especialmente quando nos tornamos repetitivos.

Dia desses, lendo “O velho que acordou menino”, do Rubem Alves, me identifiquei várias vezes com histórias engraçadas a respeito de família.

Na minha, por exemplo, existe uma infinidade de coisas de velho. Aquelas repetitivas mesmo. Que a gente fala todo-santo-dia com a mesma pessoa.

Meu tio é Isaac é uma dessas figuras repetitivas e das quais eu não vivo sem. Todos os dias de manhã vou até a casa dele esperar a carona para seguir até o trabalho. Enquanto aguardo na cozinha, aproveito para tomar um café (com leite, sem açúcar, quatro gotas de adoçante e na mesma xícara – note como sou…). Quando, finalmente, meu tio chega à cozinha, ele me olha e diz: – Você que é a Thaísca?. Eu não me chamo Thaisca e nem sei se é assim que escreve. Talvez, na idéia dele, seja TAISKA, com “K”, ou THAISKA, com “H” e “k”.

O fato é que após a pergunta eu preciso responder: Sim, sou eu!. Caso eu não responda e o finja ignorar, ele senta-se à mesa e repete até eu responder. – Você que é a Thaísca?/ Você que é a Thaísca?/ Você que é a Thaísca?..

Um minuto depois ele fala: Só eu que te chamo de Thaisca né? E eu respondo: Sim, tio. Só você. Daí então é que passamos a conversar sobre qualquer outro assunto: o frio, a chuva, o vento, o sol, o futebol, a política.

Meu outro tio, o Beto, também tem uma mania. Quando me vê, gosta de me chamar pelo nome completo inventado por ele: -Oi Thays Fernanda do Amaral Peixoto. Eu sempre respondo: Oi tio, tudo bem? E ele ri sozinho com a piada (dele). Meu nome completo é Thays Fernanda Petters de Souza Amaral. Não existe “do” Amaral e tão pouco um “Peixoto”.

Não sei de onde e por que ele inventou isso. Também nunca quis saber.

Talvez tenha sido porque o filho dele, o Rodrigo, quando pequeno, costumava falar o nome completo usando o sobrenome do meu pai. Para o Rodrigo, primos deveriam ter o mesmo sobrenome. O dele é Rodrigo Manoel Petters de Souza e ele colocava sempre o “Amaral” no final quando alguém perguntava. Ele deveria ter uns 6 anos quando isso acontecia, e essa história é contada até hoje numa roda de família.

Dia desses, quando contava essas histórias para minha mãe e minha avó, deu a entender que eu não gostava das manias dos meus tios. E sendo sincera, isso às vezes me incomodava mesmo, mas com o passar dos anos comecei a achar a mesma graça que eles. Hoje, se meu tio Isaac não me chama de Thaisca e o Beto não coloca o “Peixoto” no final, já sei que alguma coisa não vai bem.

No fim deste texto, até suspirei.
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Thays Petters é jornalista por formação e capricorniana por natureza. Criadora de pensamentos meio fora de órbita. Apaixona por cores, livros, retratos, cinema, música, cozinha e casa de vó.

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5 comentários em “Coisas de Velho

  1. Adorei Thays, vc. notou a esencia das pessoas cuando envelhecem, muda um pouco!!!!
    mas continuamos os mesmo ja,ja,ja,.
    Continue escrevendo, esta muito bom e fácil de compreender , gostei paragens.!!!

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