Olha…

Eu juro que queria falar de coisa boa, como a iogurteira Top Therm. Queria falar de poesia, de flores na primavera, viagens, samba, amores e musos que me inspiram. Queria falar sobre meu amor por livros e lobisomens, ou como a escrita me mantem firme nesse mundo cão, ou como o jornalismo me faz superar minha timidez-crônica-quase-misantropa, ou até mesmo da minha paixão intermitente pelo futebol e como isso reforça meus laços com meu pai.

Mas olha… tá foda.

É tanta falta de respeito, falta de empatia, excesso de observação da vida alheia, atitudes de fazer suar até mesmo o mais cheio da turma do copo meio cheio. A última paulada aconteceu no debate de domingo, quando o até então caricato candidato à presidência pelo PRTB soltou o petardo “Somos maioria, vamos combater essa minoria”, falando sobre a comunidade LGBT e casamento igualitário em pleno horário nobre, com todos os holofotes em cima dele. Penso no João Donati, no Gabe Kowalczyk, e nos inúmeros outros que partiram devido à intolerância ou que infelizmente têm marcados em suas peles como esse ~combate~ acontece. E isso me mortifica.

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Por mais que o pessoal da minha timeline tenha sido extremamente combativo às falas do senhor candidato, é sabido que a grande maioria, principalmente fora das redes, concorda com ele. Obviamente é esse tipo de gente que agride, tanto verbalmente quanto fisicamente, por achar que “é falta de porrada/ isso é bom pra que eles tomem jeito”. Não divido nada que o ~tratamento~ ao qual o ilustríssimo candidato tenha mencionado não tenha sido com essa intenção, propagando o ódio em rede nacional.

Eu não consigo ficar revoltada, como geralmente acontece, eu fico com outros direitos que defendo. Eu fico aterrorizada. Tenho tantas amizades e parentes que preciso proteger dessa corja, que fico apavorada que algo aconteça com eles. E os ~defensores da moral e dos bons costumes~ estão em número muito maior. Tenho medo de estar por aqui e saber que um familiar meu apanhou na rua por estar com seu par do mesmo sexo, tenho medo de estar longe e não poder ajudar algum amigo que passe por algum episódio de violência/intolerância. Isso me assusta muito mais. Eu tenho o conhecimento de causa necessário sobre racismo para rebater o que passo eventualmente, mas, tenho medo de não poder ir longe o suficiente pra proteger meus amigos. Aliás, como evitar que isso aconteça no geral? Se a legislação formulada contra as manifestações de racismo já não resolvem o que tem aparecido, o quanto a lei que criminaliza a homofobia poderá cobrir e resguardar a comunidade LGBT de tudo o que eles passam?

É impressionante o tanto de gente querendo cuidar da vida/valores/órgãos genitais alheios. E que se fortalecem através de discursos de ódio veiculados nos meios de comunicação. Não faz muito tempo, um negro foi amarrado a um poste por ter roubado uma bicicleta, volta e meia aparecem casos de pessoas que foram agredidas por demonstrações públicas de afeto com pessoas do mesmo sexo. Algo também precisa ser feito contra aqueles que espalham a cultura podre do preconceito nos meios de comunicação em massa. O silêncio dos outros candidatos também foi algo alarmante,  mas eu estava tão estarrecida que acreditei que eles estavam tão chocados quanto eu.

Eu tenho estado tão entristecida e perdida que nem sei uma pista para a solução desse problema. Enquanto isso, sigo aqui protegendo como posso aqueles que estão próximos a mim. Acho que meu copo tá ficando meio vazio.

 

 

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2 comentários em “Olha…

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