Bendito Vinicius

Ela chegou às seis da manhã, e lá estava ele. Sentado em um desses bancos de madeira na lanchonete da rodoviária. As mãos seguravam um copo de café preto amargo e os olhos atentos ao primeiro jornal da manhã exibido em uma TV de 14 polegadas.

– Oi, disse ela

– Que bom te ver, ele respondeu. E logo tratou e pegar a mala e a bolsa de mão

– Fez boa viagem?

– Fiz sim. E meu beijo?

Ele largou as malas e a beijou, com todo o carinho que lhe era peculiar

Ela sorriu.

– Estou com mau-hálito amor

– Foi você quem pediu. Tenho muitos planos para este final de semana!

– É mesmo? E começa agora?

– Não, começa depois do café.

Ao chegar a casa, encontrou uma mesa linda, decorada com flores do campo. O cheiro do café se misturava ao perfume de casa limpa. No quarto, um lençol lilás esticado perfeitamente, e na estante, aquele porta-retrato que ela tanto adorava. A foto do primeiro dia, há quase três anos.

– Comprei adoçante

– Ah! Não me diga. Que bom menino!

– E chocolates… continuou

– Esses eu deixo pra você. Quanto ao adoçante, passe já pra cá, vamos tomar um café!

Após alguns momentos de descanso, eles partiram. Pouco mais de duas horas o separavam de um encontro com a natureza e toda aquela imensidão azul.

E lá chegando, estenderam uma grande toalha sobre a areia para admirar, deitados, o pôr do sol e o nascer da lua. Eram poucas as palavras. Bastava respirar fundo e agradecer em pensamento por aquele dia. O amor dos dois nunca precisou de muitas palavras. Um entendia o olhar do outro.

Na manhã seguinte o mar estava ainda mais lindo. Os raios de sol refletiam sob o rosto dele, que a admirava, brincando com as ondas. Ela lembrou de Vinicius e o “Soneto da Mulher ao Sol”.

O tempo era curto e ao amanhecer do dia seguinte, era hora de voltar para a casa.

– Poderia me casar aqui, ele disse

– Mas você não quer casar, ela retrucou

– É, mas hoje eu queria

– Queria ou quer?

– Não sei

Os dois riram juntos e se abraçaram

– Vou te contar um segredo – e se aproximou do ouvido dele – Também quero casar na praia. Então se você mantiver a idéia, daqui alguns anos a gente concretiza, pode ser?

– Combinado linda!

O retorno foi triste. Dali algumas horas ela se despediria novamente. Há algum tempo duas cidades e pouco mais de 800 quilômetros o separavam. Muita coisa mudou, menos a vontade de um estar perto do outro. Era o desejo físico, o emocional e a doçura de belos dias.

Ao entrar no ônibus, ela entregou a ele seu livro favorito.

– Aquele dia na praia, notei que me olhava enquanto eu estava no mar. Reconheci seus olhos. Eram os mesmos de quando nos conhecemos. Naquele mesmo dia, há quase três anos, eu li um poema e nunca mais esqueci. Hoje, ele também é seu.

Ainda dentro do carro, no estacionamento da rodoviária, ele abre a página 156, marcada com um clipe vermelho. Lá estava a poesia dela, que passou a ser dele, ou passou a ser dos dois. Ele leu com um singelo sorriso de menino, e no dia seguinte, um envelope esperava para ser aberto.

– Dona Ana! – gritou o porteiro – Tem algo aqui para a senhora!

– Me ajude com a mala Seu Beto – O que é?

– Não sei, trouxeram ontem à noite e mandaram entregar para a senhora.

No cartão, apenas três frases e um nome:

“Não quero mais me sentir ausente.

Me busque novamente.

Vamos casar na praia”.

Bento.

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