Summertime happiness

Quando as temperaturas começam a subir, eu fico mais feliz. Quando adiantamos nossos relógios em uma hora, meu sorriso fica ainda mais solto. Sempre amei o verão e a época (e a estação) do ano que o antecede – antigamente, eu tinha mais motivo. Hoje, só amo por amar. Mas antes, o significado era complexo, e ao mesmo tempo, recompensador.

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Não sei se todos sabem, mas eu nasci no Rio de Janeiro. Eu, meu pai, minha mãe e meu irmão somos o único braço das famílias que fica longe demais do núcleo. Me mudei pra Região Sul antes de completar seis anos de idade. As diferenças de um lugar pros outros onde morei foram tão grandes que a família inteira sentiu tudo isso dolorosamente. Meus pais, depois de conviverem com as famílias um do outro como se fossem uma só, tiveram que lidar com essa distância. A separação não foi fácil.

Então, fizemos uma espécie de acordo: Todo fim de ano, assim que começassem as férias escolares, meu pai também tiraria férias do trabalho e iríamos ao nosso lugar de origem, para matar as saudades da nossa gente. Passaríamos um mês com nossos parentes, matando saudades deles e da nossa terra natal, para depois desse período voltarmos renovados às nossas rotinas. Não posso falar pelos meus pais e irmão, mas depois de três anos, tudo o que eu fazia durante o ano, seja na escola ou nos esportes ou nos cursos que frequentei, era em prol disso: preciso fazer tudo certo para aproveitar a recompensa no final do ano. Dessa forma, em Curitiba, passei muitos invernos glaciais sem reclamar, só tossindo ou morrendo de bronquite/falta de ar, aguentei dias infernais na escola, quebrei alguns dedos no futsal e no vôlei e dancei como se não houvesse amanhã – tá, aqui era por que eu gostava também, tudo pela recompensa das férias (não menciono o Judô porque os únicos proveito que me lembro foi o primeiro contato com a língua japonesa e as amizades que conquistei).

Minha felicidade na capital era ver os dias menos cinzentos e a confusão de sons na rua XV, das casas temporárias que abriam para vender produtos natalinos. E, obviamente, o majestoso Palácio Avenida decorado como um presente (e eu sou da época dos anjinhos pendurados nos cabos de aço. Se você nunca viu, não conhece a beleza do PA em sua totalidade) no centro da cidade. Era uma felicidade tamanha saber que, alguns dias depois do Natal eu iria mudar de ares, poder esquecer tudo de ruim que aconteceu durante o tempo que passou no intervalo entre uma visita e outra à casa dos meus parentes.

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No começo, quando a mãe do meu pai era viva, nós éramos tão paparicados que nem víamos necessidade de sair da casa dela. Não havia passeio, nem nada. Tudo o que duas crianças que viviam em apartamento por 11 meses precisava, estava ali – um quintal amplo pra brincar, um parquinho com alguns brinquedos necessários (como roda gigante, bate-bate e carrossel) ficava na frente de casa, muitos tios divertidos, alguns primos da mesma idade e muita imaginação. Não exagero que a alegria dos tios em nos hospedar fazia também das festas de Réveillon naquele quintal a mais feliz de todo o Rio de Janeiro. E ainda por cima, tínhamos a  vó mais açucarada que alguém poderia pedir. A carola que não deixava seus compromissos de igreja fazia tudo o que a gente queria, desde que não envolvesse banhos demorados de mangueira e abertura excessiva do refrigerador.

Quando essa vovó partiu, o quintal ficou mais vazio, mas não muito triste. Alguns tios ainda conseguiram segurar a alegria das festas de ano novo, todo mundo ajudando com o que podia, decoração, sonorização e, claro, a refeição. A zuera continuava por conta dos adultos – quem dormia mais cedo, acordava todo pintado de batom, não importava a idade. E era sempre a lembrança mais forte que voltava pra casa comigo, das maravilhosas festas de ano novo regada a marchinhas de carnaval e as caras avermelhadas do dia primeiro. Isso sempre me mantinha mais forte para enfrentar as adversidades durante o ano.

Após um tempo, eu deixei de encarar as férias no RJ como “recompensa” para pensar em que eu gostaria de mudar no meu modo de encarar as coisas no ano seguinte. Isso aconteceu quando me mudei novamente de cidade. É quando começam a colocar na nossa cabeça o terrorismo da responsabilidade do vestibular; quando começam as perguntas “O que você quer fazer da vida?”, dentre tantas outras que temos pavor de responder. Além do tempo de descanso com os parentes, eu tinha 48h dentro de um ônibus (24h para ida e mais 24h na volta) para refletir e decidir como eu gostaria de me portar no meu tempo de estudos.

A partir de então, começamos a ir a mais festas da outra família – não que eles nunca tivessem feito, ou nos chamado, mas ninguém ousava tirar os “bichinhos” (SIM, EU E MEU IRMÃO) de perto da vovó Guiomar. Era uma briga que não tinha fim, e infelizmente, desigual. A comida, a música e a zuera era tão boa quanto. E a outra vó, que muitas vezes tinha que nos visitar, agora recebia nossa visita. Essas festas continuam, e nós certamente queremos participar de muitas outras dessas.

Mas os bichinhos cresceram. Temos nossos compromissos, trabalhos, cursos. Meu pai se aposentou. Quebrou-se a “magia do fim do ano” – vamos quando podemos e/ou temos dinheiro para a viagem. Só nessa incompatibilidade de agenda, já perdemos uns três anos. Agora eu olho com saudade as decorações, ouço as músicas de Natal e me lembro que, num tempo não muito distante, uma menininha suspirava aliviada ao ver dezembro chegar, contando os dias para visitar sua terra, seus parentes, as suas avós.

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