Trabalho de ourives

“Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.”
(Olavo Bilac – Profissão de fé)

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Você chega aqui e lê aquele texto maravilhoso que ou te leva às lágrimas, ou às gargalhadas ou até mesmo refletir suas atitudes e pontos de vista sobre suas experiências de vida. Todo mundo aqui tem (inclusive nós, os autores), aquele preferido que a gente copiou o link e compartilhou em todos nossos perfis de redes sociais, de tão perfeito que é. Mas, para falar bem a verdade, escrever não é sempre fácil.

Tudo começa com a ideia, e ela pode surgir de qualquer lugar. Viagens, amores, experiências, trabalho… Há ainda aqueles insights que chegam antes do sono, o qual deixa a gente sempre na dúvida entre anotar pra não perder ou ignorá-lo completamente enquanto tentamos dormir – esses são os piores, o risco de perdê-los pra sempre é iminente. Perdi a conta de quantas vezes isso já me aconteceu.

Algumas ideias chegam devagar, ou que se transformam no meio do caminho… Não sei minhas colegas do Ninho, mas eu tenho inúmeros meios-textos que partem de um ponto e chegam a lugar nenhum. Parecem frutas verdes que caíram do pé antes da hora. Eles precisam amadurecer, e é por isso que ficam ali. Também tem aquelas ideias que são tão fortes/ intensas que, podem, sei lá, tomar os pensamentos durante o almoço ou transformar uma noite em perdida para a insônia. Elas perturbam tanto que, enquanto não se materializarem em texto, simplesmente não nos deixam em paz, obrigando a largar o que estamos fazendo para dar atenção a elas somente, até que estejam expressas.

escrita

Aí vem o segundo problema: quais palavras usar? Sabe quantas vezes esse texto que você está lendo agora foi revisado? VÁRIAS. E não tem nada a ver com a minha paranóia de jornalista/professora. Tá bom, tem sim. Para que o sentido fique claro, é preciso escolher bem qual palavra se encaixa em cada espaço. É a partir daqui que dou toda razão ao escritor Olavo Bilac, a tarefa de escrever ainda se assemelha ao trabalho do ourives. É preciso saber escolher, lapidar, para que o conjunto de escolhas fique atrativo a seus olhos e, principalmente, aos olhos dos outros. Quando já se tem ideia de onde se quer chegar, fica muito mais fácil. Mas quando se tem um punhado de sentimentos desorganizados (ou textos verdes, sei lá) , a coisa complica. O que deve compor essa jóia para que ela brilhe como um todo?

Vivo tempos de joalheria bagunçada, ideias apressadas fora do lugar e um pedaço de jornal cheio de meios-textos. Ideias brutas ainda pululam, esperando a chance de serem lapidadas, mas alguns instrumentos parecem não estar funcionando como deveriam. Às vezes isso acontece, é completamente normal, mas geralmente quem trabalha com palavras, com o mesmo amor de quem cuida de jóias (ou frutas), fica com os cabelos em pé quando essa fase chega.

Isso vai passar. Só não sei quando.

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