Nina, Raven, Raja e a importância do amor-próprio

Uma das melhores coisas que eu fiz a mim mesma em 2014 foi assistir as três primeiras temporadas do reality show RuPaul’s Drag Race. É o melhor reality que já assisti! Muitas pessoas já falaram dele na verdade, mas eu só vi a dimensão mesmo quando eu parei e decidi assistir.

É impressionante o número de lições de vida que você pode receber de uma Drag Queen. Elas passam por dois ciclos de discriminação: o primeiro por se assumir homossexual e o segundo por se vestir como mulher. Muitos recebem esse impacto dentro da própria família e as consequências disso são devastadoras: muitas delas entram em depressão. Mas após encontrarem pessoas que as entendem e acolhem (Geralmente são outras drags, a quem elas passam a chamar de “drag mothers”), buscaram apenas aprimoramento na arte de Drag (PORQUE SIM, TRAVESTIR-SE E MAQUIAR-SE DE FORMA GLAMOUROSA É UMA ARTE).

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A Drag Race pode ser dita a grosso modo que é para escolher a melhor entre 12 competidores que recebem desafios semanais. Se bem que dizer só isso seria limitar o programa. Como os participantes ficam “confinados” (não aos moldes “Big Brother”, mas há um pernoite no hotel entre um dia e outro de desafios), rolam amizades e muitos compartilhamentos das histórias de vida e trajetórias até a chegada na Drag Race. Apresentada por RuPaul, a competição escolhe a “próxima Drag superstar” a partir de quem tiver mais “charisma, uniqueness, nerve and talent“.

A gente vai descobrindo, a meu ver, muito mais rápido que o apresentador do programa, quem ali consegue lidar bem com a pressão das provas, quem realmente tem a habilidade necessária e quem tem a capacidade de se reinventar. O show é dividido em três partes: uma provinha pequena, quem sai campeã ganha algumas vantagens em cima das outras no desafio principal e há, no fim, um duelo de dublagem entre as duas que que não alcançaram as expectativas dos jurados. Ao fim da cantoria, uma sai eliminada. E isso acontece todas as semanas, até uma ganhar a coroa de Drag Superstar.

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As drags que menciono aqui ganharam meu coração por essa competência: Elas souberam passar por quase todos os desafios propostos, ficaram prestes a sair do programa algumas vezes, mas deram a volta por cima. Nina Flowers, Raven e Raja Gemini são mestras no que fazem. Apesar de apenas uma das três ter sido realmente vencedora de uma das edições do reality, as três sempre me fizeram suspirar. Souberam muito bem o que fazer para chegarem até o fim, arrancando sempre elogios dos jurados, geralmente muito exigentes, e o aval da Mama Ru. E olha  que –  isso, ao menos até a temporada que vi – uma coisa boa é que somente E TÃO SOMENTE RuPaul tem poder de decisão, ao público só resta acatar, mesmo que não goste. COMO EU ATÉ HOJE NÃO ENGULO A TYRA SEM GRAÇA TER GANHO A SEGUNDA EDIÇÃO. RAVEN CAMPEÃ MORAL!

Como a primeira vez é tudo muito experimentação, gosto de acreditar que só as melhores dentre as melhores participaram dessa edição. Ah sim, e a Akashia. Nina é a rainha do fazer acreditar, tanto que começou surpreendendo a todos com um maravilhoso decote sem enchimento algum, apenas aplicando maquiagem. Em uma das primeiras provas, Jorge Flores (que pra mim, quando tava desmontada e com o boné pra trás parecia o Fred Durst do Limp Bizkit) juntou alguns artigos de plástico e fez um visual punk glam que deu a ela a vitória da prova principal. Nina é tão maravilhosa que ganhou o título de “Miss Simpatia” da primeira temporada, com seus “Ay, loca!” falados à torto e à direita. O visual da porto-riquenha é tão versátil e variado que te faz torcer por ela. Até as temporadas que vi, ela foi a única drag que só teve que dublar mesmo na final.

 

 

 

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Na segunda temporada, havia um ser todo cheio de si mas que não tinha arrogância, mas segurança no que falava. Adorava usar enchimentos e quando estava com eles tinha um corpo bem feminino e mais bonito que de muita mulher. Usava seus conhecimentos de maquiagem a seu favor. Falava mal de todo mundo até uma das últimas provas, quando conseguiu abrir a carapaça de seu coração, mas sem deixar de ser totalmente a bicha má que o público conhecia. David Petruschin, a poderosíssima Raven é tão cuidadosa com seu canto como com sua maquiagem. Pra mim, foi a mais injustiçada por ter perdido na final pra uma pessoa que atrapalhou todo mundo fisicamente, jogando obstáculos em cima das outras durante uma prova (E SOB AS VISTAS DA MAMA RU! INADMISSÍVEL!)

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Por último, Raja. Nem sei por onde começar… olho pro teclado e nem sei o que dizer… apenas sentir. Quando exibiram o vídeo de inscrição das meninas, eu fiquei com um pé atrás por ela ter um amiguinho famoso dando depoimento (o cantor Adam Lambert), e quando ela chegou ao estúdio com um macacão e uma touca-de-ciclope, tudo o que fiz foi rir! Mas Sutan Amrull foi me conquistando a cada semana durante as provas principais – ela é, de longe, e posso assegurar em dizer, de todas as temporadas, a drag mais versátil. Todos seus looks cumpriam os desafios propostos e ela sempre soube extrair seu melhor de cada característica e ser uma Raja diferente a cada apresentação. E Sutan é tão bonito quanto a Raja! Eu nunca aplaudi tanto assim uma pessoa campeã de um reality (Tá, talvez o Jean Wyllys no BBB5)!

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Acontece que, além de ter ficado sem tempo, eu não assisti as outras temporadas por não ter superado o fenômeno Raja. Esta criatura tem 40 anos, é mais maravilhosa que muitas mocinhas e mais gato que muitos caras de 20 por aí. Mas esse não é o ponto neste exato momento. Eu quero dizer que o que libertou essas pessoas de tudo o que elas passaram – da resistência da família, dos episódios de preconceito – foi obviamente se encontrar sendo Drag Queens e aprimorando-se cada vez mais nisso. Os problemas seguem acontecendo, elas só mudaram a maneira de vê-los e contorná-los, o que é sempre muito importante.  Quando encontraram seus lugares no mundo, conseguiram se sobressair, foram chamados ao programa e lá e chegaram até o fim, consagradas pelo público e pelo júri.

Nina percorre a América do Norte unindo sua beleza e sua maquiagem às suas performances como DJ, Raven faz shows por todo o território americano, encantando a todos com sua beleza e, algo que foi surpresa pra mim quando terminei a 3ª temporada, ELA É MUITO AMIGA DA RAJA! Elas tem um programinha na web no qual julgam as roupas de outras drags (nunca vi o programa por não ser o tipo de coisa que apoio, mas adoro dar uma olhada na maquiagem e nos cabelos delas). Raja, além do programa com a Raven, faz performances por todo o mundo (inclusive esteve no Brasil em novembro), lançou-se cantora (eu adorei!) e seu canal no Youtube mostra toda a versatilidade de Sutan desenhista, maquiador, estilista e ser incrível que é mais de um, sendo um só.

Na verdade, a maior lição que se pode tirar do RuPaul’s Drag Race é o mote do programa, que Mama Ru faz questão de ressaltar ao final de cada show. O amor-próprio é importante para que assim toda e qualquer barreira seja transposta. Quando você se encontra fazendo algo que gosta e está feliz com suas ações e sua auto-imagem, você se torna insuperável. Can I get an amen in here?

rupaul

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