O que não está nos planos sempre é melhor

Se um dia você, minha filha, vier me perguntar se você foi um bebê desejado, só lhe darei dois conselhos e você poderá escolher qual dos dois seguir. Primeiro, senta para ouvir um discurso enorme. Segundo, leia esta carta.

Eu passei a vida inteira escutando que era chata demais, irritante demais, mimada demais, infantil demais, burra, preguiçosa… Que eu estava gorda, que eu não era uma pessoa agradável, que eu era tão ruim que morreria sozinha. Passei a vida inteira me sentindo o pior humano do mundo, mesmo passando para o mundo a imagem de mulher decidida, que se achava linda, meio arrogante até, ácida e irônica. Porém no fundo eu me sentia um lixo, acho difícil lembrar de dias que eu me senti diferente disso. Então eu lhe apresento a questão número um: como alguém tão péssimo assim poderia ser capaz de ser boa em algo?
Percebi com o passar dos anos que eu era um peixe fora d’àgua, que eu não me encaixava no mundo em que vivia… Que muitos dos amigos que eu tinha feito até então era por interesse, e que no fim do dia eu estava sozinha e me culpava por isso. Era tão ruim que era incapaz de conseguir fazer amigos pela minha personalidade, foi nesse momento que comecei a me interessar pelos livros, filmes, música e seriados. Me sentia estranha e nesses outros mundos eu me sentia leve, capaz de ir além. Cheguei até a achar um grupo no qual eu me sentia parte, mas quando estava me acostumando a ser parte de algo, me mudei novamente e lá fui de encontro a solidão. E mesmo assim lhe apresento a questão número dois: Sendo tão solitária, como conseguiria dividir essa solidão com mais alguém?
Talvez quando passasse a fase da adolescência eu poderia me encontrar, mas não, me perdi ainda mais, continuava a escutar que não era boa o suficiente, as outras sempre eram melhores, por mais que eu me esforçasse, desse o melhor de mim. Eu sempre seria aquela que não seria nada na vida, que era apenas mais uma no mundo. Tão saturada do mundo que me perdi. E foi feio, pensei em me matar nesse ponto, várias vezes. Dirigia pensando em jogar o carro em uma parede ou na frente de um caminhão. Cheguei a me jogar na frente de carros, a sentar no meio da rua e esperar alguém passar por cima. Estava tão fundo no poço que precisei passar um tempo tomando remédios. Foi então que descobri que era bipolar. Achei a resposta pra eu ser tão difícil e tão ruim. É nesse ponto veio as seguintes questões:
– Se não sou boa em nada, como serei boa mãe?
– Se eu tenho esse problema de humor terrível, como irei lidar com uma criança?
Então para agravar tudo ainda mais, tinha a consciência de que sempre tive um péssimo relacionamento com sua vó e então vem mais uma observação: Não quero ter um relacionamento desses com minha criança. Mas como mudar isso, se estou acostumada com algo tão ruim?
Então no fundo sempre coloquei na cabeça que eu não tinha nascido pra ser mãe, afinal eu era ruim demais. Era um lixo, morreria sozinha. E se eu viesse a ter um filho provavelmente seria abandonada por ele, por não ser boa mãe e isso seria muito triste. Desse modo te falo que não, eu nunca quis um filho.
Quando fiquei grávida de você, não foi um bebê planejado, digo planejado porque não foi algo que pensei em realizar. Não estava nos meus planos. Mas desejado, é algo diferente.
Diferente porque no dia que descobri que estava grávida o meu primeiro pensamento foi: Ok, preciso dormir agora, porque preciso descansar, não dormir não será bom pro bebê. Quando contei para a tia Caroles, a primeira que falei isso pessoalmente, eu dava risadas histéricas e falava pra ela “agora já foi, não tem como chorar em cima do leite derramado”, porém aqui dentro eu pensava “quero contar esse momento para ele e quero que saiba que estava feliz, feliz demais”.
Durante a gravidez eu sempre fiz questão de me manter forte, mesmo nos momentos mais desesperadores. Eu tinha que me manter forte por você, não me permitia chorar, não me permitia ser fraca, não me permitia sentir que eu era ruim. Me senti muitas vezes sozinha, sem ter com quem compartilhar todos os medos, receios, preocupações, vontades, porque não tinha outra pessoa que entenderia isso. Não tinha ninguém passando por essa mudança toda comigo, quem era pra estar, não estava, preferiu dizer por aí que eu era louca e não o queria por perto. Mesmo sua mãe chamando-o para todos os exames e medicos. A desculpa era a falta de tempo, mas para ir pro Rock in Rio ele teve, pra você não.
Quando me permitia entrar em desespero e chorar, eu colocava a mão na minha barriga e te falava: “Sou eu e você bolinha, só eu e você contra o mundo. Somos uma…”
Então sim, você não estava no meu plano, mas a partir do momento que tive a chance de acreditar que você poderia vir, passei a te desejar, a te amar. Sou dura por fora, mas mole por dentro, acredito que um dia você vai entender isso. Afinal, enquanto escrevo isso, você só tem um ano.
Por isso, nem por um segundo imagine que eu não te desejei, pelo contrário, desejei cada momento. Idealizei nossa vida e prometi que deixaria de me sentir um lixo, porque queria que você tivesse um bom exemplo de que independente de quem você seja, você pode ser você mesma. Independente de quem você ame, você pode amar. Ninguém nesse mundo tem o direito de dizer que você não pode, que é ruim, que não é boa o suficiente. Você é especial, seja quem você tiver vontade de ser. Assim como te desejei, desejo que você seja feliz. Na verdade o que mais quis foi que você viesse saudável e que fosse feliz. Sobre exemplos e atitudes que passei a tomar, fica para outro texto ou outra conversa.
Jamais esqueça que eu te amo.

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