Me apaixono fácil

Por: Alexandre Martins

Da minha série infinita de defeitos, um é suicida: eu me apaixono fácil Sim, me entrego. Se olhar nos meus olhos, me tratar com gentileza, brincar com as palavras, já era!

E quando mexe no cabelo? Nossa, não tem como não amar. Com ele foi assim também, me apaixonei fácil. Apeguei-me rapidinho. Lembro que estava pagando a conta na padaria ao lado do trabalho, abri o jornal local na página de eventos e aquele rosto lindo contornado pela barba média bem feita, logo me chamou a atenção. O que mais gostei foi o desenho dos seus olhos. Um leve toque asiático naquele jeitão todo europeu.

Na manchete, seu nome, verbo e o predicado acompanhando. Como já é de costume, fiz planos. Iria chegar de volta no trabalho, achar ele no Facebook, adicionar, puxar conversa, mandar muitos emojis de carinhas felizes e torcer para que ele me desse bola. É, eu ia. Até que a voz tênue e parcimoniosa atrás de mim me assustou:

– Eu pedi pra que eles não publicassem essa foto, mas mesmo assim fizeram. Vou ligar nesse bendito jornal amanhã e reclamar para o editor-chefe.

– É, tem que reclamar mesmo – concordei desajeitada com uma resposta aleatória.

Arrepio. Não havia prestado atenção, nem visto ele ali, atrás de mim. Senti seu perfume e reconheci: o bom e velho Portinari. Foi impossível não perceber o hálito de café dançando por aquelas palavras. Sem jeito, encaro seus olhos castanhos que me contavam histórias da infância e loucuras da puberdade.

– Mas a foto ficou boa, viu? – e apontei com o dedo a imagem fosca gravada no papel.

– Obrigado. Aliás, prazer. Filipe – disse pondo sob o braço esquerdo alguns livros e deixando o direito vago para estender-me a mão.

– Cassy – prontamente respondi. – Cassandra, na verdade – completei reparando no brinco reluzente na sua orelha esquerda. E agora, o que seria de mim? Já não precisava mais puxar a conversa pelo telefone e tentar ser gentil. O contato estava feito. E eu apaixonada. Caída de amor. Como uma adolescente. Como eu.

Mas a felicidade tem vida curta e os minutos entre sorrisos foram além da minha espera. Paguei a minha baguete e pus no bolso os centavos de troco. Para aproveitar, olhei mais uma vez aqueles olhos castanhos famintos por amor. Sorri como uma boa menina e disse adeus. Um adeus com gostinho até logo.

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Alexandre Martins é universitário de jornalismo, repórter e social media para a Revista 100 Fronteiras, escritor e blogueiro no site Aros Redondos. Além de ser sobrinho com design gráfico, é viciado em café e dias chuvosos. Seu primeiro livro, Alma, estará disponível para e-book free até dezembro desse ano.

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