Batalhas nossas de cada dia

Vou começar este texto desabafo dizendo que não é fácil escrever sobre isso, ao mesmo tempo que me sinto um pouco mais leve. Assim como não é fácil também falar em público, sair de casa, falar com estranhos (ou com quem não tenho muita intimidade), como é tentar explicar o que se passa aqui, como perder algum amigo porque não compreende o que se passa… Resumindo, desde o colapso nada foi fácil, cada dia era um batalha diferente, cada passinho que eu dava era sim uma grande vitória para eu e para todos aqueles que estavam ao meu lado e sabiam pelo que eu passava.

Aos 23 anos tive uma crise nervosa, causada por vários fatores, alguns já estavam no meu DNA (eu era pré disposta geneticamente), já outros eram mais ligados a minha rotina e ao meu estilo de vida. Meu estágio na época era tudo o que eu acreditava ter, queria tentar conseguir uma vaga de trabalho, carteira assinada, assim que eu terminasse a faculdade e surgiu uma possibilidade de isso acontecer antes de eu terminar o curso de jornalismo. Só essa possibilidade me fez ser ainda mais esforçada e dar o máximo, naquela época era tudo ou nada. Não conhecia o meio termo, eu era uma pessoa intensa em todos os níveis. Acabei me tornando workaholic, mesmo quando não estava no trabalho eu respirava trabalho. Via notícias em todos os cantos, não dormia para adiantar a pesquisa de pautas.

Além do trabalho tinha uma vida social caótica,  não que eu fosse a todas as festas, mas conhecia muita gente, então era difícil passar na frente do barzinho da faculdade sem encontrar alguém e parar pra conversar. Assim como nos finais de semana era difícil ficar em casa, sempre tinha algo para fazer. Para relaxar e me descontrair, porque na maioria das veze eu já sentia ansiedade ao sair, tomava algumas doses de tequila, vodka, wisk, ou qualquer outro destilado. Em outros eu preferia me trancar no quarto e não sair por nada.

Para ajudar, além desses fatores, eu sou insegura, passo a imagem para todos que não. Que eu me dou super bem comigo mesma, que sou resolvida, já ouvi amigos dizendo que meu ego é enorme, que me acho a última bolacha do pacote e que às vezes precisam me podar. Mas isso sempre foi uma forma de me proteger, afinal quando olhava no espelho me sentia a pior pessoa do mundo, sempre duvidei da minha própria capacidade. Sempre me achei burra, feia, baixinha, bochechuda, descabelada, nunca tive meu próprio estilo… Sempre duvidei de mim. Mesmo tendo vários amigos, sempre me senti sozinha e não pertencente aqueles lugares. Pra dizer a verdade acho que nunca senti que era parte de algo. Então estes contrastes de me esforçar de mais no trabalho, ter uma vida social hardcore, combinados com a minha insegurança, minha já conhecida ansiedade e um belo pé na bunda foram a mistura que me levou ao colapso.

“ (1)

Desculpa contar tudo assim bem detalhadamente, mas é minha forma de talvez mostrar alguns sintomas de que algo não está certo.

Bom, após ir parar no hospital por alguns dias e ir ao psiquiatra, fazer diversos exames, estava com o resultado na mão. Precisava me tratar e isso incluía uma lista com alguns remédios. Que teriam o objetivo de me acalmar, me fazer dormir, controlar minha ansiedade e nivelar meu humor que mudava mais que o clima de Foz do Iguaçu. Neste período implorei para o médico me deixar voltar pro trabalho, eu não podia de jeito nenhum perder a oportunidade, ela era mais importante que minha saúde. Inclusive o dia que acordei no hospital a primeira frase que falei foi: “Me libera que preciso ir trabalhar”. Até hoje não sei se o Dr. queria me provar que eu não estava pronta para voltar ou se ele realmente tinha esperanças de que eu conseguiria. Ou seja, fui liberada para voltar ao trabalho, mas deveria fazer consultas com ele semanais, tomar todos os remédios e ter uma ROTINA!

Ia para o trabalho a pé, e isso não poderia mudar porque eu não estava bem, lá fui eu. No caminho já sentia minha mão tremer, meu coração disparando e sentia muuuuuito frio. Eu achava que era um pouco de vergonha por tudo o que estava acontecendo, por isso decidi tentar mesmo. Continuei caminhando, mas em cada barulho que eu ouvia, a vontade era de gritar, de sumir, de chorar… Cheguei no trabalho, falei com todos, sentei na frente do computador e quando comecei a fazer meu trabalho algo despertou um pânico enorme. Não conseguia respirar, falar, andar, me movimentar, nada, estava estática. Eu só comecei a chorar e então consegui pedir para alguém ligar pra minha mãe ir me buscar que não estava bem. Naquele dia o médico me explicou que isso era normal e me deu mais um afastamento.

Passei um tempo na casa da minha vó, com a família com o objetivo de esquecer o que estava acontecendo e também pra relaxar. Mas no fundo eu só queria voltar pra casa e me esconder no quarto. Cada saída na rua era uma vitória, cada e-mail mandado para os professores com as atividades que eles tinham passado, era uma vitória. Sim, eu tinha medo de mandar um e-mail, eu tinha medo da incompreensão das pessoas. Porque o que mais ouvia era que ir ao psiquiatra era coisa de gente louca, que depressão era frescura, que todos somos ansiosos, mas temos que aprender a reagir e a lutar contra isso. Meu bem, se fosse só questão de lutar contra isso eu tinha tirado de letra.

Foram meses indo ao psiquiatra e ao psicólogo, tomando remédios, afastada da vida social para me desintoxicar de mim. Era eu contra eu mesma. Cada simples detalhe fazia a diferença. Descer no elevador não era fácil, sair na rua não era fácil, atender o telefone não era fácil. Olhar nos olhos das pessoas não era fácil. E continua não sendo.

Para não demorar mais, vou deixar para contar o restante mais pra frente. Inclusive quero fazer alguns textos bem específicos sobre algumas situações. A intenção de escrever sobre esse assunto é ter a chance de quem sabe conversar com outras pessoas que também passaram ou passam por isso. De quem sabe a gente fazer com que acabe esse preconceito com as doenças psicológicas, que acredito ser o mal do século, mas que para a maioria não passa de frescura. E como diz Justin Bieber, SORRY! Mas não é frescura é um mal real que deve ser debatido e cuidado, com toda paciência do mundo e carinho. Afinal, não era fácil e continua não sendo.

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2 comentários em “Batalhas nossas de cada dia

  1. Não fique assim, você literalmente não está sozinha! Existem várias páginas no fb sobre “vamos falar sobre depressão, ansiedade”, “o que aprendi com minha ansiedade” e etc.

    Vai conhecer pequenos truques para diminuir sua ansiedade, como respiração, tipos de música, desviar o foco da situação que gerou a ansiedade… Permita-se!

    1. Obrigada pela dica Ana Paula, mas os relatos que estou contando hoje são de 4 anos atras, resolvi falar sobre isso por diversos motivos. Entre um deles é realmente o preconceito de quem não entende esse tipo de situação ou o não conseguem compreender que nem sempre estou disposta a socialização.
      Hoje já estou bem melhor, faço acompanhamento com psicologa e tenho minhas maneiras de me acalmar. Uma delas é escrevendo. Inclusive fui liberada dos remédios, caso você continue lendo esta série de textos que irei fazer poderá ver a evolução. 😀

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