A Música

Por: Bruna Paz

Coloquei nossa música para tocar, aquela que falava de toda uma saudade que tínhamos sem nem ainda termos existido juntas. De certa forma, sabíamos que ambas possuíamos olhos gigantes suficientes para olharmos uma a outra com o cuidado necessário de quem quer ser eterno na vida de alguém.

Ao menos era isso que pensávamos, pois um pouco depois de nos realizarmos, descobrimos, eu muito mais a contragosto, que não fazíamos parte e muito menos o faríamos do mundo de cada uma.

Você tinha um jeito odioso de dizer a verdade, de olhar bem de perto e me listar cada ação errada que eu fazia. E eu sentia o prazer em seus olhos cada vez que me via assentir de olhos baixos com todos os seus dizeres maldosos, cruéis e insuportavelmente verdadeiros.

Você odiava a falta de otimismo em minha vida e não entendia como eu poderia pensar no outro dia se, como você mesma dizia, esse ainda nem havia findado. Muito menos sabia lidar com minhas frustrações antecipadas ou meus planos mal elaborados que eu ansiava por querer ver realizados.

Para você ou era sim ou era não. E o seu meio termo era o fôlego que pegava antes de tomar a cerveja. Nada mais.

Eu por minha vez não conseguia entender toda a angústia que pensar em você me trazia e muito menos o medo que sentia em perder algo que nunca havia intitulado como meu. Não queria ter levado todas minhas ânsias e muito menos todos os meus medos para você. Mas acredito que a vida é uma viagem e que não conseguimos nos dissuadir de todas as malas quando chegamos a uma nova cidade, ao contrário, vamos carregando-as por todas as vielas até que por um feliz descuido as deixamos na mesa de um bar qualquer. Eu sabia que você não iria esperar esse dia chegar e muito menos que eu ia arrastar elas sem mencionar seus respectivos pesos em toda a trajetória.

Acontece que apesar de termos colidido nossas energias e termos nos encantado com o barulho da explosão, acabamos sendo apenas duas ondas sonoras que com o tempo desapareceriam completamente em meio a tantos outros barulhos. Somos aquelas duas notas que juntas formaram uma melodia, mas que jamais conseguiriam se transformar em música. Afinal, nossos refrões eram puramente incompatíveis.

*Texto originalmente publicado no blog Deu Ruim.

Bruna

“Sou uma entre as bilhões de estrelas que traçam trajetórias nesse universo nebuloso chamado humanidade. Como tal, possuo momentos de brilhantismo enorme e apagões gerais. Aproveito-me desse meio tempo para tentar marcar nos livros de história o meu nome cadente. Fora isso sou estrela guia da desilusão, moralidade mal feita e sentimentos sem vasões.”

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