O Amor Que Estava Aqui

Por: Bruna Paz

“O que foi feito do amor que estava aqui?” pensei enquanto empacotava caixas e mais caixas de lembranças infelizes. Levei os olhos para os objetos desgastados pelo uso que, sem qualquer cuidado ou registro de ação, eu jogava pelos cantos, enquanto tentava resgatar os inúmeros retratos picotados, que há muito haviam encontrado repouso embaixo dos tapetes de saudade que meu coração coleciona.


“Eu havia visto ele por aqui!” afirmei, ainda que sob o efeito flutuante do álcool da noite anterior. Caminhei por entre as inúmeras camisetas de ombros largos e cheiros fortes e tropecei nas meias e bandeiras de times esquecidos. Fui devagar até a poltrona com marcas de cigarro e vi ali, escondido entre as almofadas, números perdidos de um telefone há muito utilizado.
Enquanto andava, sonolenta e dolorosamente, sem nenhuma memória recente de mim mesma, tropecei a contragosto, em todos os pedaços que alguém havia deixado para trás. Eu podia sentir em cada parte do terreno, a pulsação e respiração forte, de uma pessoa que aparentemente havia existido cá dentro e que agora era livro transcrito em uma língua desconhecida.
Senti os hieróglifos de um amor desesperado nas paredes dessa casa que chamava de minha, mas que há tão pouco tempo tinha sido feita de lar de outro alguém. Ouvi alguns risos ondularem pelas janelas abertas, como se em vez de apenas ondas sonoras, fossem ventos de lamúria.
Abri portas e escancarei gavetas, atrás de alguma impressão digital, um fiapo de cabelo ou um bocejo guardado em algum pote de maionese. Queria encontrar tudo aquilo que parecia ter existido, sido, ido e escondido de minha mente insana. Gritei sozinha, encarando as paredes frias e os espelhos vazios, sobre o tal amor que havia habitado o mausoléu de meus sonhos e o silêncio me preencheu como a dura resposta da vida.
Depois de uma busca infindável, descobri que o amor, àquele que dediquei inúmeras odes, havia se perdido primeiro lá fora, antes dos portões de minha alma e que ao buscar refúgio em mim, se perdeu cá dentro entre meus potes de ciúmes e minhas maquiagens de loucura. Mas mesmo diante disso, segue em carne viva em meu peito, o velho enigma: “cadê o amor que estava aqui?”.

Bruna

“Sou uma entre as bilhões de estrelas que traçam trajetórias nesse universo nebuloso chamado humanidade. Como tal, possuo momentos de brilhantismo enorme e apagões gerais. Aproveito-me desse meio tempo para tentar marcar nos livros de história o meu nome cadente. Fora isso sou estrela guia da desilusão, moralidade mal feita e sentimentos sem vasões.”

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