A conversa

Gabriel chegou em casa, andou até o quarto e se deparou com Isabela sentada na cama. Várias peças de roupas jogadas no chão. Uma mochila e uma mala pareciam estar feitas.

Ela então olhou no fundo dos olhos e falou:
-Desculpa, hoje não fiz o jantar, não passei pano na casa, não lavei a louça do almoço, nem recolhi e estendi roupa. Bom então sabe que não fiz nada durante as 4h que tive livre durante a tarde. Sei que vai falar que não é minha obrigação fazer nada disso, mas eu me sinto no dever de fazer isso. Eu sinto como minha obrigação manter a casa em ordem para você chegar e descansar das suas 12h de trabalho. No momento eu não estou trabalhando fora, nem peguei nenhum freelancer então meu trabalho é cuidar de você e da casa. Também sei que se eu não fizer isso você não irá fazer, desculpa, vai fazer o jantar e deixará toda a louça pra depois.

Ele tentou começar a falar, mas Isabela o repreendeu.

-Eu preciso que você apenas escute no momento. Depois pode falar o que quiser, mas eu preciso nesse momento desabafar. Preciso falar contigo, como se fosse uma amiga minha. Então não se sinta atacado, não estou fazendo isso, preciso apenas falar o que está aqui dentro guardado e me ferindo a cada dia que passa.

Grabriel a olhou assustado e respondeu: – Tudo bem.

Ela então começou tentar explicar tudo aquilo que a vinha magoando nos últimos tempos.

-Uma das coisas que mais me deixam para baixo é o fato de você apenas se importar com a opinião dos outros e não em como eu me sinto em relação a isso. A sua preocupação é os outros questionarem porque eu falo pouco, porque sempre estou na minha, porque eu “grito”, porque eu disse que não precisava de ajuda. Você já tentou compreender minhas atitudes? Já tentou entender como algumas situações me deixam pouco confortável por isso não falo e fico quieta? Acredito do fundo do meu coração que você não se deu ao trabalho, pois se tivesse se dado entenderia e além disso não iria se preocupar em se explicar pros outros. Eles não fazem parte do nosso relacionamento, não é com eles que você é casado e divide uma vida. Não é para eles que deve explicações. Os outros são os outros e por mais que eles cheguem perguntando como você aguenta viver com alguém tão introvertido, ou se eu sou muda também com você a sua resposta deveria ser bem simples: “Isso é uma questão minha e dela. Vocês a viram quantas vezes pra julgar?! Não convivem com ela para a conhecer bem o bastante e entender que ela é muda porque não se sente à vontade, nem um pouco segura e sim pressionada por um bando de urubus que querem apenas apontar os defeitos dos outros e reclamar.” Isso sem dúvida é muito, como você diz mesmo, cruel. Quando eu estou nervosa taco o foda-se, já tentei mudar, tento me segurar e sem querer acabo descontando em quem não merece. Porém não se é alguém próximo não deixo de os amar por isso, nem de me preocupar. Por mais que esteja brava com você ainda vou fazer o seu jantar, ainda vou te cobrir quando a coberta cair no chão e jamais deixaria você dormir naquele sofá duro por estar de cabeça quente. Agora você me ignora quando está bravo comigo, eu estou bem doente nos últimos dias, mal consigo me mexer, falar, comer e você está mais de 24h sem perguntar como estou. Se melhorei, se o fato de eu ter me molhado inteiro por conta do cano que estourou e da temperatura baixa afetou em alguma coisa a minha garganta. Se os remédios já acabaram, ou se quer falou para deixar que você cuidaria da casa porque eu estou doente. E assim foi aquele dia que você falou que não queria conversa, que eu me senti mal em ficar do seu lado e fui assistir tv na sala. Peguei no sono, dormi sem coberta e no sofá, você se quer deu ao trabalho de me chamar… Será que o que você sente por mim é mesmo amor? Sério, tem vezes que me trata tão mal que eu não sei. Alguém que ama, cuida, se preocupa e demonstra, mesmo quando está com raiva. Mesmo que possa odiar o outro naquele momento o amor o faz se preocupar. Os outros não são mais importante que nossa família, a gente não tem que ficar apontando apenas os erros e fazendo o outro se sentir pior ainda. O certo é pegar na mão e falar que tudo vai melhorar, relembrar que existem qualidades também e até mesmo mostrar como agir, puxar um papo e fazer se sentir confortável um momento de repreensão.

Ele a olhava assustado, mal imaginava que isso não era nem 1% das ações dele que a deixaram se punindo por dias e meses. Então finalmente perguntou:

– E essas malas?

Ela respondeu com lágrimas nos olhos.

-Te perguntei mais cedo se você queria que eu fosse embora… Me disse para fazer o que eu achasse melhor. Então comecei a fazer as malas, porque senti que você não me queria aqui.

Gabriel então perguntou porque estavam pela metade.

Isabela pareceu confusa e então falou:

– Eu parei de fazer a mala pela metade, porque essa relação não é só minha. É nossa, preciso que você também decida isso comigo.

Foi então que ele a pegou pelo braço e a beijou, eu jamais quero que você vá embora.

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