Oi. Desculpem eu chegar ainda cheia de confetes e dos meus “ala-la-ôs”, mas ainda tem algo sobre o carnaval que eu preciso falar. Se vocês tiverem um tantinho de paciência, poderão perceber que o papo de hoje transita entre o carnaval que passou (OBRIGADA PELA ALEGRIA, MINHA MOCIDADE!) e o dia da mulher.

O Portal G1 foi fazendo um “esquenta” com entrevistas de musas selecionadas de cada escola. Uma das reportagens que mais me marcou durante esse pré-carnaval foi a de Rafaela Bastos, componente da Estação Primeira de Mangueira que fez um estudo premiado sobre a objetificação sexual das passistas. Indo na contramão do que muitas feministas negras acham, ela mostra que sim, as meninas estão completamente cientes de como a imagem delas é vendida, mas que nunca partiu delas tal mensagem.

Rafaela Bastos e sua Medalha Rui Barbosa
Rafaela Bastos e sua Medalha Rui Barbosa

Trago este assunto à tona porque das feministas negras que eu sempre procuro ler para me informar, nenhuma fala sobre isso. Ou tratam as moças das escolas de samba como completamente alienadas, ou até mesmo como se o carnaval não fizesse parte da cultura negra – e essa é a parte que me dói mais. Ele tá dilacerado, mutilado, nas mãos de quem não devia, mas como diz Nelson Sargento, baluarte da escola de Rafaela, ele agoniza, mas não morre. Mas me incomoda toda essa aura de “agora que estou na academia, este popular não tem mais valor” (ou até pior: “nunca gostei de carnaval, então f*-se, vou dar minha opinião como mulher negra sem conhecer o contexto”).

Rafaela sente isso na pele, tanto que não se reconhece feminista. E eu entendo o lado dela: como, se as que se declaram como tais repudiam o que ela faz durante alguns meses do ano, mesmo repetindo o mantra que lugar de mulher é onde ela quiser? A moça é geógrafa e trabalha na Secretaria de Cultura do Rio, logo, tem também instrução de nível superior. Nada a separa de nós, negras que não vivem o Carnaval com intensidade, já que o objetivo comum é o respeito e a igualdade perante a sociedade.

Rafaela sendo musa na Sapucaí
Rafaela sendo musa na Sapucaí

A autocrítica do movimento faz-se necessária, pois menosprezar mulheres do mundo do samba é privar uma parcela da sociedade que mostra para as meninas que também pode-se ser princesa de outra forma, dançar como quiser (é o que a sociedade sambística espera de uma passista, afinal) e exigir a aceitação de seus espaços. Faz-se necessário entender que muitas (muitas) meninas (mesmo! Eu fui uma delas) se espelham nas Rainhas, Princesas e Musas das comunidades das GRES por aí como primeiro exemplo. Então não deveria haver motivo para demonizá-las.

Não adianta somente querer vestir a Globeleza e achar que o trabalho está feito – é necessário saber que nosso samba precisa ser entendido como um todo. O enredo é muito mais denso que parece. Poderíamos unir forças pra começar a desconstruir paradigmas também dentro dos Grêmios Recreativos.

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