Nem sempre sonhei em engravidar. Aos 16 achava terrível, e dizia que SE um dia engravidasse nunca que eu ia parir. Aos 17 sonhava em ter filhos, e daí em diante tornou-se um assunto muito querido por mim.

Aos 21, já casada (mas sem previsão de filhos), encontrei ao acaso o site da Cris Doula, que falava sobre partos humanizados, em banheiras, bebês fofinhos e mães felizes. Viciei no assunto e cada dia lia mais.

Em setembro de 2013 descobrimos que meu mal estar não era fígado, era bebê. E o choque? Tendo ovários policísticos não imaginava que seria tão cedo ou tão fácil. Gravidez não planejada, mas muito esperada! Brincamos que esta foi a criança mais esperada do planeta! Todos acompanhando, família e amigos comemorando a cada foto da barriga, e campanha #VemDiana à todo vapor.

 Já havia decidido parir desde o primeiro relato de parto natural lido. Devorando sites, matérias, artigos e evidências científicas, o nosso problema era ONDE parir. Com tanto que lemos sobre a realidade obstétrica do Brasil (90% de cesáreas na rede privada, 60% na rede pública) estávamos morrendo de medo de hospitais. Ao menos eu estava.

Eis que surge o nome da Casa Angela – Centro de Parto Normal Humanizado em algum grupo de gestantes do facebook. Pesquisando melhor, decidimos conhecer e nos apaixonamos desde o primeiro instante! Lugar maravilhoso, abençoado, tranquilo e com todo amor que poderíamos esperar para receber nossa pequena.

37 semanas, gestação de risco habitual, ok! Aprovados pela Casa, agora é só esperar a pequena vir. Passa 37 semanas, passa 38, passa 39. A barriga só crescendo, junto com a ansiedade que tentei a todo custo disfarçar.

Desde 38 semanas estávamos esperando Diana à qualquer momento, e os dias passaram e passaram e nenhum “sintoma”. Nessa altura da gestação, cada bebê que nasce é um “Por que não eu??!”! Parece que seu bebê nunca vai nascer, que você nunca mais vai deixar de estar grávida haha

E completamos 40 semanas! E nada. Houve virada de lua, e todas as amigas com partos próximos ao meu já relatavam seus sinais. E Diana, nada. Você se questiona se isso dará certo, se ela um dia vai nascer, por que raios demora tanto. Paciência! Vamos esperar a hora que ela decidir vir.

40 semanas e 3 dias, e eu estava LOUCA por pizza. Pra quem não acompanhou, estive em dieta de restrição de glicose desde 35 semanas de gestação, e não aguentava mais! Eu PRE-CI-SA-VA de pizza de palmito. Saímos de carro para pedir a pizza no balcão, numa pizzaria que ficava próxima de casa. Durante o dia havia tido contrações de treinamento, normais, como em qualquer outro dia anterior. No carro tive cólicas fracas, nada de mais. Passei a contar o tempo entre elas com um aplicativo de celular (clicava cada vez que iniciava e novamente quando parava) e ele contou 3 minutos entre cada “cólica”. Por insistência do Adriano, liguei pra Casa Angela pra informar, e fui atendida pela Anke. Ela disse que contasse quantas contrações tinha em 10 minutos, e caso continuasse assim por mais de uma hora ou que desse 3 contrações em 10 minutos, que poderia ir pra lá avaliar. Contei 4 contrações e não haviam se passado 10 minutos, mas eu não sentia nada! Estava rindo, e tirando o maior sarro, “Duvido que essa menina nasce hoje! Vou comer a pizza e tomar banho e as contrações vão parar, deve ser treinamento!”.

Chegamos à pizzaria, pedimos e ficamos aguardando em pé. Contração vem, silencio, caminho, respiro. Contração passa, brinco, rio, gargalho, e a atendente só olhando. “Ela está em trabalho de parto”, diz Adriano pra atendente. E eu ria e pensava “duvido que nasce hoje, ainda vou comer essa pizza!”.

Pegamos a pizza e eu já não conseguia pensar direito, parecia que tinha bebido. Nossa casa ficava a menos de 3 minutos, mas foi o suficiente pra que eu dissesse que não desceria do carro, que o Adriano deveria descer e chamar minha mãe, porque iríamos à Casa Angela avaliar. Com as pizzas.

No caminho, ligo novamente pra Anke, “Chego em 20 minutos, e estou levando pizzas!”. Um pequeno parêntesis: A Casa estava quase cheia, dos 4 quartos disponíveis para partos, 3 estavam ocupados! Um nascido de manhã, outra em trabalho de parto (Oi Pamela!) e uma que depois foi transferida, nem cheguei a ver.

Foram 20 ou 30 minutos até lá, e no mesmo esquema: Contração vinha, eu silenciava. Nesse momento tinha ódio extremo de todas as infelizes pessoas tagarelando dentro do carro (Adriano, minha mãe e minha sogra). Contração passava, eu conversava e ria, fazia piadas de tudo.

Assim que chegamos encontrei Anke, eram 21h20. Ela iria preparar a sala para examinar e fazer o cardiotoco (exame que dura aproximadamente 20 minutos e ouve e “imprime” os batimentos cardíacos do bebê e as contrações). Descemos com as pizzas e fomos jantar enquanto isso.

SIM! EU COMI UM PEDAÇO DE PIZZA! :’)

Comia e caminhava, e nas contrações já me apoiava na parede, pois a dor havia aumentado. Anke chamou e fomos pro consultório. Toque feito, 4cm de dilatação, começamos o cardiotoco. Avisei a fotógrafa (Fernanda Ribeiro) e a doula (Juliana Mesquita) do que estava acontecendo, e que ligaria novamente caso internasse. Contrações boas, pouca dor, e bem efetivas! Era mesmo trabalho de parto! Se continuassem boas poderíamos escolher entre ir pra casa esperar o trabalho de parto engrenar ou já internar. Durante o exame, as dores foram aumentando. Eu já não conseguia sorrir tanto, as contrações estavam muito próximas, e ficando bem doloridas. Cardiotoco pronto, Anke foi verificar alguma coisa e eu poderia levantar e me arrumar. Assim que levantei da maca levamos um susto! A bolsa estourou e veio como um balde d’água jorrando em nós! Só consegui lembrar de tirar os tênis e o shorts antes que molhasse demais (nem sei porque! Haha). Saí dali pro banheiro, sentia muita vontade de evacuar (conforme a descida do bebê no canal de parto, o reto é pressionado e há esse alarme falso). Por um minuto voltei à realidade e me vi sozinha no banheiro, jorrando líquido amniótico, e me dei conta que Diana estava mesmo à caminho! Nesse momento não sei onde Adriano foi, só sei que logo Anke estava de volta com a Anivalda, que trazia uma cadeira de rodas para me levar ao quarto. Vi a cadeira de rodas e ri! Falei “Imagina, eu vou é andando!” e nisso veio outra contração e as pernas travaram. Olhei pra ela, “É, vou de carona mesmo..”.

Pedi que Adriano ligasse pra Ju, mas não lembrei de pedir que avisasse a Fer.. Esqueci totalmente e fiquei sem fotos do parto. 😦

O quarto era lindo como eu lembrava e imaginava. Luz baixa, aconchegante. Sentei na cama e Adriano apareceu com malas (acho). Pedi pra ir ao banheiro que fica fora do quarto e Anke e Adriano me acompanharam. O banheiro tem privada, pia e chuveiro com barra na parede, e nos disponibilizaram bola de pilates, banqueta de parto e um tapete acolchoado.

 Nessa altura do campeonato eu estava na partolândia total! Partolândia é um lugar lindo e mágico onde as mulheres passam o trabalho de parto e que as deixam levemente chapadas de hormônios do amor. Lembro de flashes, e muita coisa já se perdeu na minha memória.

Lembro de ter pedido pra que o Adriano ligasse o chuveiro, estávamos só nós dois no banheiro. Anke vinha verificar como tudo estava, mas nos deixava sozinhos no nosso momento feliz. Sabia que ela estava sempre na porta ou corredor, mas quase não lembro de vê-la nesse momento.

Havia água quente aliviando as dores, Adriano estava lá e nossa filha estava chegando. Nossa filha, tão esperada e tão amada. E eu a estava trazendo pro mundo!

Outro toque e 7cm de dilatação. Não faço ideia de quanto tempo havia se passado, pelo que Adriano disse deveria ser por volta de 22h20. Ficamos mais algum tempo no chuveiro e eu não encontrava mais posição confortável. Desde que entrei no chuveiro as vocalizações se transformaram em urros, o que ajudava a aliviar as dores. Já não só vocalizava como também fazia força durante as contrações, meu corpo pedia.

Um tempo depois ouvi a frase que mais esperei na gestação: “Quer que prepare a banheira?”. Foi como se o céu se abrisse e um coro de anjos e clarins surgisse naquele banheiro! Haha

Voltamos para o quarto (PPP4, nunca esquecerei!) e a banheira já estava mais da metade cheia. Me apoiei durante algumas contrações no cavalinho, com ajuda da Anivalda, mas passar as contrações fora da água quente era muito difícil. Ela me apoiou e entrei na banheira. Que sensação maravilhosa!

De quatro apoios e transversa na banheira. Foi a melhor posição que encontrei! Com o rosto apoiado na lateral da banheira, voltado pra parede, e com as costas pro mundo, concentrada apenas na minha pequena! A água quente envolvendo meu corpo e sendo derramada pelo marido ao longo das minhas costas era um acalento! A cada contração, minha pequena mais perto de nós…

Nesse momento, posso dizer, que o pior já havia passado. As dores mais intensas foram antes da banheira, até os tais 7cm e um pouco mais. Era uma dor que tirava o chão, tirava a racionalidade, fazia a mente voar e deixar o corpo trabalhar.

Na banheira, luz baixa, silêncio, marido e parteira. E no meu mundo, apenas eu e as contrações, eu e minha Diana, eu e a água quente. Nós duas trabalhando à todo vapor.

Auscultamos Diana intermitentemente durante o trabalho de parto, apenas com sonar. Todo o tempo ela esteve muito bem, perfeita. Pediram pra fazer novo toque, eu já estava sentada na banheira, toda atravessada, e ela disse que já estava pra nascer (acredito que estivesse com dilatação total)! Pediu que mudasse de posição, pois do jeito que estava não teria espaço suficiente pra ela nascer.

Dessa vez no sentido certo da banheira, semi-sentada, com as costas escoradas na banheira e os pés escorados no marido. Ele ficou lá, na minha frente, me apoiando, incentivando, e vendo tudo de camarote! Já sentia o círculo-de-fogo, aquela sensação de queimação e ardência, sinal de que o bebê está próximo de nascer. O corpo virou força, o grito virou força, e nessa força ela nasceu! Primeiro a cabeça, que passou tranquilamente durante duas contrações. E pausa. Essa pausa eu não imaginava nem nos meus sonhos mais malucos! Parecia que o tempo havia parado! Contrações sumiram, a dor sumiu, tudo parecia só um sonho… Toquei seu rostinho, ela estava lá, esperando. Nova contração e em duas forcinhas ela saiu! LINDA! Às 23h e 17min, do dia 16 de maio de 2014, amparada pelo pai! Veio direto pro meu colo, cordão ainda pulsando, toda roxinha, a menina mais linda desse mundo! Do meu mundo! O MEU MUNDO! Ela nasceu!!! Não conseguia acreditar! Nada mais importava, porque ela tinha nascido! Redondinha, bochechuda, e tão tranquila. Não chorou, apenas ficou lá curtindo o colinho, aprendendo a respirar.

Ficamos por volta de 20 minutos juntinhas, namorando! Como não senti novas contrações, a parteira sugeriu que eu segurasse o cordão e fizesse mais algumas forças, pra verificar se a placenta parecia sair, se o cordão folgava.. Tentei e não notei muita diferença. Pediram que eu fosse pra cama de parto pra que pudessem verificar sangramentos e a placenta, e também porque a água começava a esfriar, precisávamos aquecer a pequena.

Fiquei em pé e ploft, a placenta caiu in-tei-ra!

Saldo técnico do dia:

  • 3 horas total de trabalho de parto (das 20 às 23h aproximadamente);
  • Apgar 9/10/10 (Uhuul!);
  • Peso: 3,490kg (Uma meninona linda!);
  • Comprimento: 48cm;
  • IG DUM: 41 semanas e 1 dia;
  • IG USG: 40 semanas e 3 dias;
  • Capurro: 38 semanas e 6 dias;
  • Uma laceração pequena (2 pontos) e duas escoriações.

(Pra quem não sabe, capurro é a IG baseada nas características do RN)

Minha pequena nasceu num parto rápido e liso, “tsunâmico e quiabo”, mesmo com ameaça de diabetes na gestação. Nasceu o que é considerado até “grandinha”, com apgar quase perfeito, e divina!

Pari sem anestesia, e foi maravilhoso! Nem lembrei que existia essa possibilidade! Aproveitei cada contração, cada onda de dor, me permiti sentir todo o trabalho de parto e parto, e não me arrependo!

Na cama de parto, cortamos o cordão quando parou de pulsar e Diana mamou por mais de uma hora. Apenas depois de mais de duas horas de nascida é que foi pesada e examinada.

Saí do quarto de parto e fui para o nosso quarto andando. No dia seguinte dei banho em Diana e tomei banho sozinha! Como é bom poder fazer tudo sozinha! Não senti cansaço físico nem mental, parecia que era eu quem tinha acabado de renascer! Já o papai, estava detonado! haha

Com a idade gestacional calculada pelos ultrassons ou pela data da última menstruação, a “medicina comum” consideraria que já estava “passando do tempo”. Se eu tivesse feito uma cesárea com 38 semanas pela USG (o que cada dia se torna mais comum no Brasil e com os médicos afirmando erroneamente que o bebê estaria pronto e que não teria problemas), teria tirado a minha filha antes do tempo, ela teria apenas 36 semanas e provavelmente ficaria na UTI por desconforto respiratório, se não coisa pior.

Durante o expulsivo o bebê faz movimentos de ida-e-volta, o que trabalha o períneo e evita danos. Como o expulsivo foi muito rápido e intenso, não senti que Diana fez essa movimentação. Ela saiu “de uma vez”, o que colaborou pra que lacerasse. Levei dois pontos, e tive duas escoriações (é como um esfolado), e por volta de 10 dias depois estava tudo perfeito.

E não, parto normal não alarga “o parquinho do marido”.

DSC_0172.jpg


Este relato precisa ser eternizado!

Três anos completa hoje minha pequena Diana. Aquela que deixou meu mundo de ponta-cabeça, me virou do avesso, e me mostrou meu melhor e meu pior lado.

A maternagem não é nem de perto algo fácil e 100% prazeroso, fato. Aprendi isso com ela. Teimosa, difícil, porém decidida e cheia de vida. Transforma qualquer ambiente, traz luz e cor à todos! Não falta amor e carinho naqueles olhos castanhos…

Que você tenha sempre saúde, minha princesa, e que não lhe falte energia, força e coragem pra enfrentar a vida! Que possamos sempre vencer nossas próprias barreiras, especialmente as minhas barreiras, para que eu possa ser cada dia uma mãe melhor pra você.

Como diz um grande amigo, “Nosso papel como pais é tentar estragar o mínimo esses seres humanos que já nascem incríveis, e aprender com eles o quanto for possível.“.

Filha, um dia você poderá ler tudo isso, mas até lá vou dizer-lhe o quanto eu puder: EU AMO VOCÊ!


Se tiver interesse em saber mais sobre gestação, parto, e tudo que envolve estes assuntos (especialmente se estiver gestando!) me procure!

fb.com/nascer.doula  &  fb.com/shererdoula

Fernanda Sherer
Doula, Educadora Perinatal e Mãe da Diana

Anúncios

Obrigada por comentar.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s