Por: Yuri Amaral

Antes de começar, preciso reconhecer meus privilégios sociais: tive uma boa infância, pude estudar sem precisar me preocupar em largar tudo para sobreviver. Quando me veem, enxergam um homem cis branco que nunca passou necessidades financeiras na vida, e o que veem na gente antes de nos conhecerem conta muito em uma sociedade como a nossa.

Sou bicha e com meia hora de conversa já conto que faço drag, sou artesão e vivo com meu namorado-tão-bicha-quanto-eu, Juliano. Fui duramente reprimido pela minha família apanhei na escola durante a infância por ser afeminado? Sim, muito. Mas nada disso anula o fato de que ainda carrego privilégios, pois ser branco e “parecer homem” conta muito, e esse é meu local de fala: sou bicha, mas pareço “homem”. E isso tornou minha caminhada muito mais fácil.

Provavelmente, em vários momentos, me escondi em minha pele branca e disfarcei minha feminilidade em prol da sobrevivência ou até mesmo para “exercer poder”. Posso ser minoria política, mas isso não anula os preconceitos que aprendemos e replicamos, enraizados em nossa cultura.

Negamos não apenas aquilo que há em nós (pois somos condicionados a isso), mas também reprimimos as pessoas que estão ao nosso redor. Não deixamos de ser preconceituosos, mas podemos, por exemplo, aprender mecanismos para enxergar isso em nós e conseguir, de alguma forma, reduzir os estragos que isso causa apenas ficando quietos. Pesque na sua memória: em algum momento já fomos gordofóbicos, já negamos a bicha afeminada, já ignoramos e falamos mal de travestis… até aprendermos de fato a respeitar e ouvir, magoamos muitas pessoas.

Ter um dia que nos lembra que nós, lgbttq+, deixamos de ser considerados uma doença pela OMS, não é apenas motivo para celebração. É um momento para lembrarmos dos que morreram para seguirmos lutando por um mundo onde não precisemos, todos os dias, justificar e explicar o que somos e por que somos.

Assumir-se lgbttq+ muitas vezes não é uma escolha, mas uma necessidade. As vezes somos mortos antes mesmo de sermos ouvidos. E as vezes matamos também, ao negar, ao falar por cima, ao tomar o espaço de fala. Aprender a ouvir a dor do próximo sem anulá-la é um grande passo, principalmente se você não for lgbttq+ e não sofrer opressão.

Se você é não é mulher (cis ou trans), travesti ou afeminado, não tem o direito de falar o que é e o que não é machismo (e cada uma dessas pessoas entende e vivencia isso com intensidades muito diferentes).

Se não é negro, não pode ditar o que é e não é racismo.

Se não é pobre, não pode falar que tudo é uma questão de tentar mais e aproveitar oportunidades.

Reconhecer os próprios privilégios e então perceber seu local de fala é talvez o mais importante passo por uma sociedade mais honesta e igualitária. Não precisa ir pras ruas, viu? Pode começar em casa, na escola e no trabalho, inclusive nos seus perfis de redes sociais: não cortar a fala da colega mulher, não julgar a pessoa gorda, não falar que a pessoa negra está de mimimi nem “xingar” de mulherzinha e viado já é um começo. E por favor, não falar que bissexualidade é indecisão ou fase.

A lição mais valiosa que aprendi em minha vida foi a de ficar quieto e ouvir e, só então, abrir a boca e perguntar: o que posso fazer para ajudar? Empatia é se colocar no lugar do outro, entender sua luta e jamais silenciá-la.

Quantas pessoas você já oprimiu hoje?

E quantas você ouviu?

Mestre em Estudos Interdisciplinares Latinoamericanos (UNILA), já trabalhou como Diretor de Conteúdo Digital na SA365 e como Diretor de Arte de Mídias Sociais na Leo Burnett. Atualmente é artesão, junto de seu namorado, no Coelho Jujuba. Ilustrador freelancer, Também atua em projetos culturais regionais, além de questionar performance de gênero como Yala, sua persona DragQueen. <yu.amaral@gmail.com>.

Anúncios

Obrigada por comentar.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s