Um dia tudo são flores, no outro só os espinhos são vistos. É normal mudar de humor depois de algo ter acontecido. O ser humano é movido não só pela razão, mas também pela emoção. O problema é quando as mudanças são frequentes sem motivação aparente ou quando as pessoas têm determinado comportamento que causa grande impacto, que parece até mesmo ser outra pessoa.

Por exemplo, um casal que namora há 4 anos, de repente, do nada, depois de um fim de semana lindo juntos, de muitas declarações, diversão e de planos para o futuro. O rapaz na segunda-feira tem um comportamento totalmente contrário, frio, ríspido, grosseiro e na despedida da amada, o fim do relacionamento, palavras carregadas de muita raiva, amargura, sem qualquer consideração e respeito com tudo o que foi vivido. Sem muitas explicações ele vai embora deixando um enorme ponto de interrogação.

Há pessoas que não sabem lidar com as próprias em emoções e ficam perdidas, sem saber o que fazerem. É normal ter dificuldade em lidar as adversidades que aparecem ao longo do caminho, o problema é quando o medo e a insegurança travam a pessoa, fazem mal pra quem não sabe ter domínio. Além de Deus, os psicólogos são anjos que habitam a terra e estão sempre a postos a ajudar nas mais diversas situações.

O relato acima, que citei como exemplo, é verídico e a história é bem longa. Conversando com a pessoa que viveu isso, questionamos a possibilidade do outro ter algum transtorno de personalidade.

O transtorno de personalidade é uma doença e precisa ser tratada. Mas por falta de informações, muitas vezes o próprio paciente custa a entender que precisa de ajuda.

Por isso a Stefania Bueno, psicóloga topou colaborar com o Ninho de Mafagafas.

1 – O que é transtorno de personalidade?

Primeiramente, gostaria de esclarecer que este tema é muito amplo e complexo e que não será possível esclarecer detalhadamente aqui.

Vamos entender primeiramente o que é um transtorno de personalidade. Segundo o DSM-V (manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), um transtorno de personalidade é um padrão persistente de experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo, sendo difuso e inflexível, começando na adolescência ou no início da fase adulta, sendo estável ao longo do tempo e levando a sofrimento e prejuízo.

De acordo com a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, um transtorno de personalidade tem como característica um padrão comportamental  inflexível, de perfil mal adaptativo e que provoca sérios prejuízos psicológicos, materiais e físicos ao próprio indivíduo e as pessoas que o cercam e com as quais ele matem relações interpessoais íntimas.

2) Existem vários tipos de transtorno de personalidade?

Sim, são vários tipos. Cada um deles possui sintomas característicos, se diferenciando uns dos outros. Segue alguns deles:

Transtorno de personalidade paranoide;

Transtorno de personalidade antissocial;

Transtorno de personalidade boderline;

Transtorno de personalidade narcisista;

Transtorno de personalidade obsessivo-compulsivo;

Transtorno de personalidade esquizoide;

Transtorno de personalidade esquizotípica;

Transtorno de personalidade histriônica;

Transtorno de personalidade evitativa;

Transtorno de personalidade dependente, entre outros.

3 – Hoje em dia, ouvimos falar muito sobre o  transtorno de personalidade boderline. Como é esse transtorno? A pessoa apresenta sintomas?

O transtorno de personalidade boderline ou TPB tem como característica principal um padrão difuso de instabilidade das relações interpessoais, da autoimagem, de afetos e de impulsividade acentuada que surge na adolescência ou no começo da vida adulta. No caso do transtorno de personalidade boderline, há uma marcante instabilidade afetiva e interpessoal, grande impulsividade, tentativas para evitar o abandono (real ou imaginário), episódios de automutilação, sensação de um vazio crônico, expressão inapropriada da raiva e falta de um senso de identidade consistente. Nessa fase da vida começamos a experimentar as primeiras relações amorosas e consequentemente as sensações de paixão, sofrimento e frustrações. Até aí todos nós podemos sentir emoções boas ou às vezes desagradáveis, em algum momento sentir tristeza ou raiva. Mas atenção, para quem tem o transtorno de personalidade boderline não é somente isso, tudo é muito mais intenso, alguns pacientes relatam: “é como se fosse uma montanha russa de sentimentos muito fortes que mudam a qualquer momento, uma sensação de vazio muito grande. O TPB pode se apresentar de formas diversas e com intensidades e/ou gravidades variadas. Um dos pontos marcantes é sua disfuncionalidade afetiva, enorme dificuldade em suas relações interpessoais, especialmente com cônjuges, familiares, filhos e namorados.

4 – O transtorno de personalidade boderline é desenvolvido com o tempo ou a pessoa nasce com uma pré-disposição?

No caso do TPB, a neuropsiquiatria, apoiada pelo avanço da neurociência, está descobrindo que muitas questões que julgávamos originar-se com uma educação inadequada ou traumas na infância, na verdade, sofre muita influência da genética, da estrutura e da neuroquímica de nossos cérebros. Segundo o DSM-V, o TPB é cerca de cinco vezes mais comum em parentes biológicos de primeiro grau de pessoas com o transtorno do que na população geral. Cerca de 75% dos casos  diagnosticados são em pessoas do sexo feminino, ou seja, o TPB ocorre mais em mulheres do que em homens.

5 – O transtorno se não tratado pode progredir de forma que a pessoa coloque a própria vida em risco?

Sim, é de fundamental importância que a pessoa com esses sintomas peça ajuda ou que a família fique atenta e ofereça ajuda, pois muitas vezes a pessoa não comenta sobre como se sente ou não percebe que está doente. Os familiares ou pessoas próximas devem prestar atenção e tomar uma atitude o quanto antes. O TPB sem um tratamento adequado pode levar o indivíduo a tentativas de suicídio, automutilações, comportamentos impulsivos e agressivos que podem sim ferir a si mesmo ou outras pessoas.  Devemos levar a sério, acolher e buscar tratamento imediatamente.

6 – Quais os tratamentos para alguém que sofra do TPB?

O primeiro grande passo para um tratamento eficaz é um diagnóstico bem feito. Fazer um diagnóstico correto de um transtorno é fundamental para salvar vidas em qualquer área da medicina. Quando pensamos no TPB é com certeza desafiador, pois é um dos transtornos mais complexos para traçar um diagnóstico. Isso acontece por ser bastante comum que esses pacientes sejam levados aos seus primeiros atendimentos por situações de emergência, como automutilação, intoxicação ou overdose, crises de agressividade (ataques de fúria), ou até tentativas de suicídio. É muito comum receberem diferentes diagnósticos e tratamentos até que recebam um diagnóstico e tratamento adequado, podendo levar muitos anos. O TPB apresenta sintomas que são confundidos com outros transtornos. É necessário buscar profissionais experientes, com conhecimento na área. O tratamento eficaz envolve acompanhamento com um psiquiatra para um tratamento medicamentoso. É muito importante o medicamento, para que a psicoterapia possa ocorrer de uma forma mais eficaz.  É necessário um mínimo de estabilidade para que aspectos importantes sejam trabalhados em terapia. O tratamento psicoterápico é fundamental para alcançar um mínimo de estabilidade que essas pessoas necessitam para viver no seu cotidiano. Em alguns casos é necessário a terapia familiar para complementar a eficácia do tratamento e um acompanhamento terapêutico (AT) também para realização de atividades práticas psicoeducacionais. Formando assim uma rede de apoio ao paciente, com uma equipe com boa comunicação para esse trabalho multidisciplinar e bem alinhado.

Quanto mais precoce o diagnóstico e o tratamento sendo feito de forma adequada pela equipe de profissionais os pacientes podem apresentar melhoras significativas. As medicações adequadas ajudarão a controlar os sintomas do transtorno como oscilações de humor, episódios depressivos, episódios de automutilação, quadros psicóticos, uso de drogas e impulsividade, reduzindo assim os danos causados pelo transtorno a própria pessoa e aos que convivem com ela.

É comum que esses pacientes apresentem outros problemas psiquiátricos associados como dependência de substâncias, transtornos alimentares (anorexia, bulimia), transtornos de ansiedade (pânico, fobias, etc), transtorno disfórmico, entre outros.  A  psicoterapia é fundamental para esses pacientes. Entre vários métodos psicoterápicos que vem sido testados para melhorar a qualidade de vida desses pacientes, alguns foram reconhecidos como os mais indicados, incluindo a Terapia Dialética Comportamental, principalmente quando há risco de suicídio ou automutilações frequentes.

7 – Qual o conselho para quem convive com alguém que sofra com o transtorno?

Recomendo que levem a sério os sintomas, procurem acolher, oferecer ajuda e tratamento o quanto antes, se possível os familiares devem buscar também fazer psicoterapia para estarem bem emocionalmente e conseguirem enfrentar melhor os desafios que acontecem durante o tratamento. Busquem profissionais que tenham experiência e conhecimento no transtorno.  Não julguem a pessoa. Isso só piora o estado emocional que ela se encontra. Procurem estudar, conhecer o transtorno e poderão compreender e ajudar mais.

8) Mais alguma coisa para quem se interessou sobre o tema?

Algumas curiosidades:

De acordo com o  livro da psiquiatra Ana Beatriza, acredita-se que  algumas personalidades famosas tinham ou têm o suposto funcionamento boderline, como  Amy Winehouse, Marilyn Monroe, Tony Curtis, Janis Joplin e Elizabeth Taylor.

Assistam os filmes “O cisne negro” e “Garota, interrompida”, que tem a ver com o assunto.  Para quem quer ler mais sobre o TPB o livro “Corações descontrolados” é muito bom, didático, da autora Ana Beatriz Barbosa Silva.

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Stefania Bueno é graduada em Psicologia, pós-graduada em Terapia Cognitivo Comportamental pelo IPTC (Instituto Paranaense de Terapias Cognitivas), formada em Coaching Pessoal e Profissional pela SBC (Sociedade Brasileira de Coaching), graduada em Turismo, pós-graduada em Ecoturismo, Meio Ambiente e Educação ambiental.

Contato: stefania.psicologia@gmail.com

(45) 99917-6378 / (45) 991036183 / (45) 3028-3275

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Blog: https://psicologastefania.wordpress.com/

 

 

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