Era uma vez uma mocinha boazinha. Tão boazinha que, casada com um homem de expressão na França foi designada a vir ao Brasil junto a ele, achando maravilhosa a empreitada. Chegando aqui, ela decidiu que sua meta de vida seria ajudar a consertar um defeito que a sociedade brasileira tinha. E assim o fez.

A moça, cheia de boas intenções, primeiro tirou uma foto invertendo os papéis, colocando modelos como empregadas e ela e algumas amigas como “patroas”. Ela gostou do resultado mas viu algumas sobrancelhas levantadas, então pôs-se a pensar em uma nova forma de passar sua mensagem bondosa de igualdade.

No, Ma’am.

Foi então que ela decidiu pegar as pessoas de maior expressão daquele lugar e pintar suas fotos, dando a elas “sua melanina mágica”, como ela explicou, tendo a mais absoluta certeza que tocaria todos os corações e crendo que tudo iria se consertar. Ela estava tão focada em seu objetivo que acreditou que as pessoas ficariam todas encantadas com sua iniciativa, anunciando que todas elas estariam em sua vernissage.

Ela só não pensou que aqui não é a França.

Ela só se esqueceu de que não está solitaria na luta contra o racismo brasileiro.

Ela só não entendeu que Blackface é uma das formas mais ofensivas de racismo, ainda mais vindo de uma negra.

Ela só não quis saber que as críticas ao seu trabalho não foram feitas em torno do que é ou deixa de ser arte, mas que foi uma forma distorcida de provocação que saiu pela culatra, afinal, só quem criticou são pessoas engajadas com a luta do povo negro e que estão acostumadas a sofrer racismo todos os dias.

Ela não sabia, por fim, que para que as pessoas compareçam a um evento qualquer, elas TÊM DE SER CONVIDADAS ANTES DE SEREM ANUNCIADAS.

A mocinha infelizmente ficou tão enfezada que entendeu tudo, tudo errado. Ela se sentiu acuada quando na verdade deveria ter escutado o que estava sendo dito. Ela se sentiu ameaçada quando ela somente precisava entender que alterar a cor de personalidades de pele clara em pessoas de pele negra em fotos não ajuda em nada a combater o racismo, muito pelo contrário, incentiva a perpetuar a prática ofensiva do blackface; pois afinal, se ela fez com eles, por que eles não podem?

Não precisa fazer essa cara. Escutar, às vezes, é bom.

Enquanto ela segue se sentindo a Mártir acuada pelos negros desunidos e raivosos deste reino (na visão dela), lá onde ela nasceu a sociedade segue em polvorosa pelo mesmo motivo: Lá a imprensa defende a personalidade de destaque que se pintou de negro como se não tivesse nada de errado. Quer dizer: A boa-moça não sabe nem mesmo resolver o problema em seu Local Encantado.

A boa moça, Alexandra Loras, precisa aprender a ouvir mais e falar menos.

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